Das Homilias sobre o Livro de Josué

Orígenes, presbítero, séc. III (Ofício das Leituras, Comum da Dedicação de uma Igreja).

Todos nós, que cremos em Jesus Cristo, somos chamados pedras vivas, segundo as palavras das Escrituras: Também vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual, sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo (1Pd 2,5). Ora, quando se trata de pedras de construção, sabemos que primeiro são colocadas nos alicerces as mais sólidas e resistentes, para que possamos com segurança colocar-lhes em cima todo o peso do edifício; do mesmo modo, também entre as pedras vivas algumas são colocadas nos alicerces do edifício espiritual. Quais são essas pedras vivas colocadas nos alicerces? São os apóstolos e os profetas, como ensina São Paulo: Vós fostes integrados no edifício que tem como fundamento os apóstolos e os profetas, e o próprio Jesus Cristo, nosso Senhor, como pedra principal (Ef 2,20).

Tu que me ouves, para melhor participares da construção deste edifício e seres uma das pedras mais próximas do alicerce, fica sabendo ser o próprio Cristo o alicerce do edifício que estamos descrevendo. Assim se exprime o apóstolo Paulo: Ninguém pode colocar outro alicerce diferente do que aí está, já colocado: Jesus Cristo (1Cor 3,11). Felizes, pois, aqueles que vão se tornando edifícios religiosos e santos sobre tão nobre alicerce!

Todavia, neste edifício que é a Igreja, também é necessário um altar. Por isso julgo que todos dentre vós, pedras vivas, preparados e dispostos para se dedicarem à oração, a fim de oferecer a Deus dia e noite o sacrifício de suas preces e súplicas, sois as pedras com que Jesus edifica o altar.

Considera, portanto, a nobreza dessas pedras do altar: como prescreveu o legislador Moisés, diz a Escritura, que se construa o altar com pedras inteiras, não talhadas por ferro. Que pedras inteiras e intocadas são estas? Talvez os santos Apóstolos, formando em conjunto um só altar por sua unanimidade e concórdia. De fato, narra-se que todos eles perseveraram na oração em comum (At 1,14), e, tomando a palavras, disseram: Senhor, tu conheces os corações de todos (At 1,24).

Os que assim podiam orar, num só coração, numa só voz e num só espírito, são realmente dignos de construir um só altar, sobre o qual Jesus ofereça seu sacrifício ao Pai. Também devemos nos esforçar por ter a mesma linguagem e os mesmos sentimentos, nada fazendo por espírito de contenda ou vanglória. Permanecendo unidos no mesmo modo de sentir e pensar, certamente nos tornaremos pedras dignas do altar.

Referência: ITAICI, Revista de Espiritualidade Inaciana, nº 88 (Junho/2012), pág. 95.