INTRODUÇÃO (9)

DIVISÃO E CONTEÚDO

Não é fácil estabelecer uma divisão que ofereça a ordem precisa no desenvolvimento do conteúdo do Apocalipse, especialmente a partir do capítulo 4 em que o autor começa a descrever as visões sobre os últimos tempos. Com efeito, há temas que parecem repetir-se, como os castigos que antecedem o fim (Ap 6,1-15; 8,6-9,21), o triunfo dos eleitos (Ap 7,9-17;14,1-5; 19,1-10), a queda da Babilônia (Ap 14,6-11; 18,1-3), e outros. Às vezes interrompe-se bruscamente o relato duma visão para dar passagem a outra (Ap 8,2; 10,1; 12,1; etc…). Em algumas ocasiões encontram-se temas que parecem romper o ritmo da narração, como o das duas testemunhas (Ap 11,1-3), ou da mulher celeste (Ap 12,1-17). Tudo isto faz pensar a alguns estudiosos que o texto atual do Apocalipse poderia ser o resultado da refundição de duas obras anteriores de São João sobre o mesmo tema.

Tal hipótese não é demonstrável, mas nota-se certo desenvolvimento temático. A partir do capítulo 4, se aponta o desenlace de um conflito dramático entre Cristo e os poderes do mal, que culmina nos últimos capítulos (Ap 19,11-22,5). Mas, o final já aparece antecipadamente, antes do seu desenlace. O autor expõe em cada uma das visões a totalidade de sua mensagem, não seguindo critérios de ordem cronológica usuais.

Utiliza recursos literários, dando um aspecto de novidade crescente, mantendo no ar a atenção do leitor até o fim. Utiliza como elemento literário básico o número 7, depois das sete cartas às Igrejas  (Ap 1,4-3,22), contempla um livro selado com sete selos (Ap 5,1-8,1), ouve o soar das sete trombetas (Ap 8,2-11,15) e vê derramar sobre a terra o conteúdo de sete taças: as sete pragas (Ap 15,1-16,17). Cabe lembrar, que as sete cartas são uma unidade, mas os restantes septenários se conectam uns com os outros: o sétimo selo introduz a visão dos sete Anjos com as sete trombetas (Ap 8,1-2), e ao soar a sétima trombeta o autor contempla o Santuário de Deus de que saem os sete Anjos com as sete taças (Ap 11,19; 15,5). Depois de derramar a última taça, são mostrados os adversários, os combates finais e a exaltação da Igreja (Ap 17-22).

O recurso tão frequente ao número sete fez com que alguns estudiosos tenham optado por dividir o livro em sete atos de sete cenas cada um, mas não é um esquema rígido.

Após o toque da sétima trombeta (Ap 11,15), perde-se relevo o esquema septenário, e aparecem com força os simbolismos da mulher, as bestas, o Cordeiro e a cidade.

Segue uma divisão bem aceita:

PRÓLOGO: Apresenta-se o livro e o Autor (1,1-3)

I PARTE: CARTAS ÀS SETE IGREJAS DA ÁSIA (1,4-3,22):

  • Saudação epistolar solene (1,4-8).
  • Introdução, em que se expõe que Cristo glorioso lhe ordena escrever (1,9-20).
  • Cartas às Igrejas de Éfeso (2,1-7), Esmirna (2,8-11), Pérgamo (2,12-17), Tiatira (2,18-29), Sardes (3,1-6), Filadélfia (3,7-13) e Laodiceia (3,14-22).

II PARTE: VISÕES ESCATOLÓGICAS (4,1-22,15):

  • Visão introdutória: Levado ao céu, o autor contempla a Deus na sua glória, donde dirige os destinos do mundo e da Igreja. Estes constituem um mistério que unicamente Cristo pode desvelar, pois é o único capaz de abrir os sete selos (caps 4-5);
  • Seção primeira: Acontecimentos prévios ao desenlace final. Conjunto de visões até o som da última trombeta (6,1-11,14);
    • Cristo abre os seis primeiros selos. Chegada do dia da ira de Deus (6,1-17);
    • A grande multidão dos salvos (7,1-17);
    • A abertura do sétimo selo e visão dos sete anjos com as trombetas (8,1-6);
    • Toque das primeiras trombetas. Anunciam a vinda de Deus e produzem catástrofes que convidam à conversão (8,7-9,21);
    • O pequeno livro dado a comer ao autor. O que ainda há de ficar velado e o que se vai revelar profeticamente (10,1-11);
    • Morte e exaltação das duas testemunhas (11,1-14).
  • Seção segunda: Vitória de Cristo sobre os poderes do mal e glorificação da Igreja (11,15-22,15):
    • Toque da sétima trombeta: Chega o Reino de Cristo (11,15-19);
    • A mulher perseguida pela serpente: a Igreja (12,1-17);
    • As bestas que recebem poder da serpente (13,1-18);
    • O Cordeiro e o seu séquito (14,1-5);
    • Anúncio e imagens do juízo: a sega e a vindima (14,6-20);
    • O cântico dos salvos: O de Moisés e o do Cordeiro (15,1-4);
    • As sete taças com as sete pragas: Última possibilidade de conversão (15,5-16,21);
    • Descrição dos poderes do mal: A prostituta, Babilônia e a besta (17,1-18);
    • Anúncio da queda da Babilônia: Alegria e lamentações (18,1-24);
    • Cantos de triunfo entre os salvados (19,1-10);
    • Primeiro combate: É derrotada a besta (19,11-21);
    • Mil anos de reinado de Cristo e dos Seus (20,1-6);
    • Segundo combate: É derrotado Satanás (20,7-10);
    • Juízo Final sobre os vivos e mortos (20,11-15);
    • Instauração e um mundo novo: Nova criação e descrição da Jerusalém messiânica (21,1-22,15).

CONCLUSÃO: Diálogo entre Jesus e a Igreja. Advertências ao leitor e despedida (22,16-21).