Ap 4,1-11

SEGUNDA PARTE

VISÕES ESCATOLÓGICAS

DEUS NO TRONO DA SUA GLÓRIA

1Depois disso tive uma visão: havia no céu uma porta aberta, e a voz que antes eu tinha ouvido falar-me como trombeta disse-me: “Sobe aqui, que vou mostrar-te as coisas que devem acontecer depois”. 2Na mesma hora fui arrebatado em êxtase: havia um trono colocado no céu e alguém sentado no trono. 3Aquele que estava sentado era semelhante no aspecto ao jaspe e à cornalina; havia um arco-íris ao redor do trono semelhante à esmeralda.

1-3. Cristo ressuscitado e glorioso, convida João, agora numa nova visão a subir ao céu para contemplar os decretos de Deus sobre o mundo. Vai ser revelado a João, os acontecimentos relacionados com o futuro, mas que já começaram a se realizar no tempo em que vive o autor do livro, e que culminarão no fim da história.

Subir ao céu, é equivalente a cair em êxtase, o que significa ser possuído de forma extraordinária pelo Espírito Santo, para perceber o que Deus quer manifestar-lhe mediante uma revelação.

Na descrição do céu ressalta a majestade e a soberania de Deus. As pedras preciosas, em cores vivas, representam o rosto de Deus. O arco-íris à volta do trono, destaca o aspecto celeste de Deus, e recorda, que Deus é misericordioso (Gn 9,12-17).

4Ao redor do trono havia vinte e quatro tronos, sobre os quais estavam sentados vinte e quatro anciãos, vestidos de branco, com coroas de ouro na cabeça.

4. Formam uma espécie de Senado ou conselho celestial. Não sabemos exatamente se representam os anjos ou os Santos do Céu. O número simbólico de vinte e quatro nos faz pensar que sejam santos glorificados. São doze mais doze, o número das Tribos de Israel mais o número dos Apóstolos. Com visões de caráter simbólico, o Apocalipse mostra a união entre a Igreja triunfante e a Igreja militante, ou seja, a relação entre o louvor a Deus que se realiza no Céu, e o a Liturgia que se realiza na terra.

5Do trono saíam relâmpagos, vozes e trovões, e diante dele brilhavam sete lâmpadas, que são os sete espíritos de Deus.

5. Esta visão parece as teofanias do AT, em especial a do Sinai (Ex 19,16).

6Diante do trono havia uma espécie de mar límpido, tão transparente como o cristal. No meio do trono e a seu redor estavam quatro seres vivos, cheios de olhos na frente e atrás. 7O primeiro ser vivo era como um leão; o segundo ser vivo era como um touro; o terceiro ser vivo tinha um rosto como o de homem; o quarto ser vivo era como uma águia em pleno voo. 

6-7. Para descrever a majestade de Deus no Céu, São João emprega elementos simbólicos cujo significados, por vezes não é fácil de determinar. O mar é o domínio absoluto de Deus. Com efeito na tradição bíblica é com frequência símbolo dos poderes tenebrosos (Ap 13,1;21,1). Um mar límpido como cristal, Deus tem domínio sobre ele, cf. Gn 1,2: o espírito de Deus operava sobre a superfície das águas.

A Tradição, considera os quatro seres, como representantes dos quatro evangelistas: Leão – lembra São Marcos, cujo Evangelho começa como a voz que clama do deserto, onde se houve o rugido do leão; Touro – lugar onde situa São Lucas o princípio do seu relato; Homem – simboliza São Mateus, cujo evangelho começa com a genealogia humana de Cristo; Águia – representa São João, que se eleve até o mais alto para contemplar a divindade do Verbo.

8Os quatro seres vivos, cada qual com seis asas, eram cheios de olhos ao redor e por dentro. E não cessavam de repetir dia e noite:
“Santo, Santo, Santo, Senhor,
Deus, soberano do universo,
aquele que era, que é e que vem”.
9E cada vez que aqueles seres vivos rendiam glória, honra e ação de graças àquele que estava sentado no trono e que vive pelos séculos dos séculos, 10os vinte e quatro anciãos se prostravam diante daquele que estava sentado no trono, para adorar aquele que vive pelos séculos dos séculos e lançavam suas coroas diante do trono, dizendo:
11“Vós sois digno, ó Senhor e nosso Deus,
de receber a glória, a honra e o poder,
porque criastes todas as coisas,
e por vossa vontade foram criadas e subsistem”.

8-11. O canto dos quatro seres é o mesmo que ouve o profeta Isaías aos serafins de seis asas, na sua visão de Deus no Templo de Jerusalém (Is 6,1-3). Os quatro seres, que pelo número quatro simbolizam o governo de todo o universo, têm a iniciativa na adoração e no louvor. A eles se unem os vinte e quatro anciãos (Igreja triunfante no Céu), para depor suas coroas, que significa reconhecer que o triunfo somente se deve a Deus, só a Ele pertence o poder. O motivo do louvor é a obra criadora de Deus, onde a Igreja peregrina se junta a Igreja triunfante para louvar o Criador três vezes santo.