Ap 5,1-14

SEGUNDA PARTE

VISÕES ESCATOLÓGICAS

O LIVRO SELADO E O CORDEIRO

1Na mão direita daquele que estava sentado no trono eu vi um livro, escrito de ambos os lados e selado com sete selos. 2E vi um anjo forte, proclamando em alta voz: “Quem é digno de abrir o livro e de romper seus selos?” 3Mas ninguém era capaz, nem no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, de abrir o livro ou de olhar para ele. 4Eu chorava muito, porque ninguém fora achado digno de abrir o livro ou de olhar para ele. 5Então um dos anciãos me disse: “Não chores; o leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, alcançou a vitória, para abrir o livro e seus sete selos”.

1-5. O livro selado contém os misteriosos desígnios salvíficos de Deus que ninguém no mundo pode desvelar. A imagem de um livro, ou rolo, contendo os misteriosos desígnios de Deus sobre a humanidade, tinha sido usada especialmente pelo profeta Daniel (Dn 12,4-9; e Is 29,11), afirmando que a profecia estaria selada até os últimos tempos.

Conhecer quanto escreveu nele, o desígnio de Deus, afeta profundamente o autor do Apocalipse, e todo homem, pois significa descobrir o sentido da vida, e libertar o homem da angústia perante as adversidades da história e obscuridade do fim.

Ao estar fechado atrasa-se a manifestação da salvação dos homens e da consolação da Igreja. Onde o mistério do homem só se esclarece no mistério do Verbo encarnado.

6Então eu vi, de pé, entre o trono e os quatro seres vivos e no meio dos anciãos, um Cordeiro como que imolado. Tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados por toda a terra. 7Ele veio então receber o livro da mão direita daquele que estava sentado no trono. 

6-7. A razão do poder de Cristo para abrir o livro está na Sua morte e Ressurreição, realidade expressada com a figura do cordeiro, de pé, erguido e triunfante, e ao mesmo tempo imolado, sacrificado. A imagem do Cordeiro evoca o cordeiro pascal, com cujo sangue se aspergiram as padieiras das casas judaicas, como sinal para os libertar do castigo Divino que o Anjo de Yahweh infligiu ao Egito (Ex 12,7.13). Junto a este aspecto expiatório, o Apocalipse destaca o poder triunfal do Cordeiro ressuscitado, ao colocá-lo de pé sobre o trono, no centro de visão: o Seu poder está representado nos cornos e o Seu conhecimento nos olhos.

8E, quando o recebeu, os quatro seres vivos e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um uma harpa e taças de ouro cheias de perfume, que são as orações dos santos. 9Eles cantavam um cântico novo, dizendo:
“Vós sois digno de receber o livro
e de abrir seus selos,
pois fostes imolado
e resgatastes para Deus, com vosso sangue,
homens de toda raça, língua, povo e nação;
10e fizestes deles, para nosso Deus,
um reino de sacerdotes que reinem sobre a terra”.

8-10. A grandeza de Cristo Cordeiro é reconhecida e proclamada pelo culto que recebe, em primeiro lugar, dos quatro viventes e dos vinte e quatro anciãos; depois de todos os Anjos e por fim, da criação inteira. Assim com força o valor das orações daqueles que são fiéis à vontade divina. O “cântico novo” proclama que só Cristo dispõe dos destinos do mundo e dos homens, e isto é assim em razão do Seu próprio sacrifício como vítima propiciatória por excelência.

11E em minha visão ouvi também a voz de uma multidão de anjos que rodeavam o trono, os seres vivos e os anciãos. Eram miríades de miríades e milhares de milhares. 12Eles clamavam em alta voz: “O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e o louvor!”
13Ouvi então que todas as criaturas no céu, na terra e debaixo da terra e no mar, e tudo quanto neles existe proclamavam: “Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, louvor, honra, glória e poder pelos séculos dos séculos!”
14E os quatro seres vivos diziam: “Amém!” E os anciãos se prostraram em adoração.

11-14. A grande multidão de Anjos a rodear o trono como guarda de honra, proclama a plenitude da perfeição divina de Cristo, o Cordeiro. Depois do canto das criaturas espirituais e invisíveis, ressoa o hino dos seres materiais e visíveis.

Como noutros passos do Apocalipse, fala-se do ofício dos Anjos do Céu, pondo em relevo a sua adoração e louvor diante do trono de Deus (Ap 7,11); a sua missão como executores dos desígnios divinos (Ap 11,15; 16,17, 22,6); e a sua intercessão diante do Senhor em favor dos homens (Ap 8,4).