Mística Inaciana

“Multiplica os teus olhos para verem mais… E verás muito além” (Cecília Meireles).

No curso de aprofundamento no Colégio Santo Inácio do Rio de Janeiro, o Pe. Adroaldo, nos fala sobre a Mística Inaciana, onde destacamos a grande contribuição e originalidade de S. Inácio à história da humanidade quanto à descoberta do “mundo interior”; esse mundo desconhecido e surpreendente, que é o coração, onde acontece o mais importante e decisivo em cada pessoa.

Enquanto seus contemporâneos aventuravam-se nas descobertas de novas terras, Inácio caminhava para as “terras desconhecidas” da própria existência.

S. Inácio descobre que toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que é seu mistério íntimo e pessoal. “Viver em profundidade” significa “entrar” no âmago da própria vida, “descer” até às fontes do próprio ser, até às raízes mais profundas. Ali se pode encontrar o sentido de tudo “aquilo que se é, daquilo que se faz, se espera, busca e deseja”.

É no “eu mais profundo” que as forças vitais se acham disponíveis para ajudar a pessoa a crescer dia-a-dia, tornando-a aquilo para o qual foi chamada a ser. Trata-se da dimensão mais verdadeira de si, a sede das decisões vitais, o lugar das riquezas pessoais, onde ela vive o melhor de si mesma, onde se encontram os dinamismos do seu crescimento, de onde partem as suas aspirações e desejos mobilizadores, onde a criatividade busca inspiração…

É “descendo” que poderemos revitalizar a vida que se tornara vazia e ressequida. Então, a vivência da espiritualidade inaciana nos revela que o “subir” até Deus passa pelo “descer” às profundezas da própria humanidade. Assim, a espiritualidade inaciana é uma espiritualidade de “descida” em direção a tudo o que é humano. E isso é possível porque Deus já “desceu” à condição humana. Deus revela sua transcendência humanizando-se até onde nós somos incapazes de chegar. Tal é o sentido profundo da contemplação do “mistério da Encarnação”.

O exercício da “contemplação da Encarnação” consistirá em acompanhar o olhar amoroso e compassivo da Trindade sobre a humanidade, e experimentar em mim, um novo modo de ver a humanidade, agora com os olhos da Trindade.

O olhar da Trindade é um olhar inovador, olhar comprometido que faz acontecer a “nova criação”. A partir deste divino olhar contemplativo é que somos chamados a olhar, escutar, observar…, os outros, com os olhos de ternura, de compaixão, de acolhida… Olhar não contaminado, sem veneno…, olhar sem suspeita, sem julgamento, sem comparações… Olhar que recria o ser humano, que abre futuro novo, que percebe no outro uma originalidade divina… Olhar inquietante que sonda a verdade… Olhar audacioso que desperta as consciências, sacode a acomodação, desperta a criatividade… Um olhar amoroso, apaixonado, que deslumbra que fica assombrado diante da nobreza do outro e da maravilha da criação.

É através do olhar que as crianças tomam contato com a beleza, o fascínio das pessoas e do mundo. Da mesma forma, a pessoa contemplativa, movida por um olhar novo, vê às pessoas e o mundo como “Sacramento de Deus”. A partir do olhar de Deus podemos até transformar uma pessoa. Muitas vezes, o presente mais precioso que podemos dar a alguém é um olhar diferente.

Multipliquemos nosso olhar na cena da Encarnação (Lc 2,1-14), e descobriremos que podemos ver mais além.