Os Exercícios Espirituais no contexto pós-moderno

O grito. Edvard Munch (1893), Galeria Nacional, Oslo (Noruega)

No Curso de Capacitação com o Padre Adroaldo, experimentamos profundos ensinamentos repassados pelo sacerdote, onde como forma de estudo, repassamos aquilo que mais tem marcado em alguns textos, o crescimento espiritual.

A partir do livro Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman, o orientador do curso nos coloca em contato com a sociedade pós-moderna, na qual estamos inseridos, e buscando saídas à luz da experiência dos EE (Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola), apontamos algumas reflexões, antes de entrarmos no texto:

A mística inaciana é uma mística de descida, de humanização, onde adentramos em nossa própria humanidade, para um processo criativo, onde as decisões serão tomadas em nosso coração, para a ação no mundo. Devemos nos deixar ser conduzidos pelo Espírito Santo, para ser Sal e Luz no mundo.

Não devemos fugir do mundo, e sim termos mais atuação neste mundo, onde será nosso lugar de experiência, lugar de vivermos a nossa Fé, vivendo a radicalidade do Evangelho, que são as raízes de nossas condições humanas.

Devemos trabalhar rezando e rezar trabalhando, iluminando, inspirando e provocando a nossa vida para Deus, pois a Espiritualidade proposta por Inácio de Loyola é uma Espiritualidade encarnada e integradora.

A Pós-modernidade, num primeiro momento, revela-se como desencanto frente à Modernidade, que apresentava o mito do progresso a partir da razão. Frente aos excessos da racionalidade, aposta-se na sensibilidade e na afetividade; frente a projetos totalizantes, prefere-se dar valor à diversidade; frente à preocupação pelo progresso e pelo futuro, dá-se mais atenção ao presente em toda sua densidade; e quando a aposta pela liberdade se radicaliza, desemboca em um individualismo que reduz a sociedade a um conglomerado de indivíduos preocupados somente com seus interesses particulares e menos sensíveis aos interesses gerais da coletividade: isto é um traço muito típico do mundo de hoje.

Diante do fracasso das possibilidades da razão moderna, toma-se o caminho da acomodação ao agora, ao presente, que deve ser vivido com o maior prazer possível. O passado, com suas experiências e tradições, é descartado. O futuro, com seus projetos a serem construídos, simplesmente é desconsiderado. A falta de sentido da vida campeia pelo mundo. Volta-se para o máximo de diversão (o lazer), para a busca do corpo perfeito (estética); constrói-se a sociedade da imagem, em que valem as regras do marketing, o espetáculo, a imagem, ainda que distante do real ou falseada, a libertação do desejo. Abandona-se as utopias, os compromissos éticos e históricos.

Através da busca de uma “vida leve” longe de sofrimentos, busca-se todo tipo de terapias, técnicas de relaxamento, expansão da consciência. A religião torna-se “show” (espetáculo), terapia ou relação mercantilista dentro do individualismo cada vez mais exacerbado. “Tudo se torna líquido: o amor, as relações, a ética, a sociedade”. (cf. Zygmunt Bauman).

Indubitavelmente este novo modo de ser abriu muitas possibilidades para o progresso da humanidade e para o desenvolvimento das pessoas: hoje somos mais conscientes da dignidade da pessoa humana e dos direitos em que esta dignidade se concretiza.

Intimamente relacionado a isso está o reconhecimento da igualdade de todos os seres humanos, independentemente de sua raça, religião, opção sexual, status social ou qualquer outra circunstância.

Uma menção especial merece o reconhecimento da igualdade do homem e da mulher: isso tem consequências que incidem sobre a família, a educação dos filhos, a divisão de trabalho; numa palavra, sobre um melhor equilíbrio do masculino e do feminino na sociedade.

Diante de tal fenômeno sociocultural surgem diferentes reações. Muitos, de maneira acrítica, introjetam este modo de se situar na vida. Alguns, acuados diante da erosão de sentido, das tradições, das crises e mudanças rápidas, assumem uma postura fundamentalista. Outros tentam entender o fenômeno, considerar os avanços e a força da Modernidade para superar os entraves e negatividades.

A experiência dos Exercícios Espirituais nos coloca nesta terceira tendência: nem acomodação ao “espírito do mundo” (Pós-Modernidade), nem volta nostálgica ao passado (fundamentalismo), mas compreensão da realidade para, criativamente, dar respostas na radicalidade exigida pelo Evangelho.

A Espiritualidade Inaciana, por um lado exige firmeza, perseverança e radicalidade; por outro, muita criatividade e flexibilidade.

Estando imersos em um período de mudanças rápidas, não podemos simplesmente entrar na moda. Caso contrário, estaremos adaptando o Evangelho e suas exigências ao sabor do passageiro e da massificação.

Seguir Jesus Cristo na “Pós-Modernidade” não significa capitular diante das exigências do Evangelho para torná-lo mais fácil.  No entanto, a inflexibilidade pode se constituir em um desserviço ao Reino de Deus e à Igreja.

Mudanças são necessárias para responder com mais autenticidade aos desafios do tempo, para buscar respostas mais plausíveis para os problemas cotidianos e para assumir com mais profundidade as propostas de Jesus Cristo.

– Como é possível a experiência inaciana do encontro com Deus numa sociedade individualista?

O primeiro passo para uma autêntica experiência espiritual é acolher nossa humanidade e a realidade que nos toca viver; reconhecer que em nossa cultura pós-moderna há vida e enfermidade, que este é o contexto que nos é oferecido para viver nossa relação com Deus, a partir da fé e acolhendo Sua graça.

Não se trata de lutar contra nosso mundo, senão de conhecê-lo para advertir de suas armadilhas. Este é o nosso contexto, nele temos de viver, e nele há possibilidades de  encontros com o Senhor.

Simplesmente, temos um contexto diferente para viver o dom que nos foi dado.  Se nos deixamos conduzir por esse dom, geraremos novos contextos onde o encontro com Deus e com os outros seja significativo. O cristão inaciano não é o reativo que olha de banda para ver o que fazem os outros e poder responder-lhes à altura; ele vive afirmativamente a partir do dom originário e originante, que transforma a partir de dentro o contexto concreto no qual é acolhido.

Somos nós” a sociedade pós-moderna: não podemos imaginar-nos fora dela para atuar sobre ela. Não podemos abstrair-nos de viver no mundo que vivemos. São estas, e não outras, as tendências que nos afetam à hora de escutar o Espírito e viver a fé.

O encontro com Deus se dá no mundo e na vida tal como são; não nos é pedido criar umas condições ideais. Acolhendo o contexto em que vivemos como uma situação de graça, e reconciliando-nos com a situação que nos toca viver, talvez possamos recuperar a promessa germinal da passagem pós-moderna para a consciência e para a experiência pessoal. Não somos nós que “levamos” Deus à sociedade; Ele já está lá.

Quando descobrimos que há um amor que nos precede e aceitamos a graça de viver n’Ele, nosso mundo se oferece como o lugar no qual viver o dom que nos é dado. Encontrar Deus não consiste em realizar um esforço titânico para superar as condições adversas da sociedade, mas deixar Deus ser Deus, acolher seu dom e deixar-nos conduzir por Ele com fé.

Da experiência de amar a Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus, nasce uma espiritualidade radicalmente “mundana”, de contemplação do mundo e de ação no mundo. Libertado da relação egoísta com as criaturas, o ser humano torna-se um orante e um cooperador permanente do projeto salvífico de Deus.

Faz-se necessária, portanto, uma busca pessoal, uma experiência espiritual personalizada, não isolada, pois é em comunidade que compartilhamos um sentido para a vida e onde as experiências podem ser lidas, interpretadas, compreendidas, expressadas e celebradas.

Há um modo pessoal e único de Deus se dirigir a cada um, e um dom particular que foi dado a cada um para o bem de todos. Uma fé personalizada que nos fará eclesiais e fraternos.

Quem vê o mundo assim, com um olhar singular e universal, amoroso e esperançado, libertador e integrador, torna-se um “contemplativo na ação”. Quem contempla, ama e serve assim vive enraizado no mistério da vida trinitária e, ao mesmo tempo, mergulhado na sociedade de seu tempo.

A finalidade da espiritualidade inaciana é ajudar as pessoas a fazerem a experiência pessoal de Deus, vivendo e agindo no mundo. Por isso ela será sempre atual.  Nesse sentido, a espiritualidade inaciana lança uma ponte que une modernidade e pós-modernidade.

Referência: Curso Extensivo sobre Exercícios Espirituais (Pe. Adroaldo Palaoro,SJ)