REGRAS DE DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS (RDD) DA PRIMEIRA SEMANA (EE 313-327)

  1. As RDD dão algumas indicações para realizar bem este caminho interior. Elas são frutos da experiência espiritual do leigo Íñigo de Loyola e ajudam as pessoas a progredirem na sua caminhada nos Exercícios Espirituais (EE) e na vida cotidiana.
  2. O leigo Íñigo teve a sua primeira experiência de “moções” (consolação e desolação!) e de discernimento dos espíritos no seu leito de convalescente (Autob. 8).  Ele se ocupava com a leitura da Vida de Jesus Cristo e da Vida dos Santos, enquanto igualmente constatava, como a ferida da perna se cicatrizava. Na sua cabeça surgiam pensamentos bons e outros piores. Num momento, ele imaginava uma vida puramente evangélica, como discípulo de Jesus e num outro momento o que poderia fazer na Corte para conquistar a dama de seus sonhos… Sua mente era povoada de pensamentos e desejos contraditórios!
  3. Das leituras que fazia brotavam desejos de imitar Jesus e os Santos e isso o deixavam consolado e cheio de vida. E esse sentimento permanecia, mesmo depois de acabadas as leituras.  Com as imaginações de conquistas amorosas ficava também absorto, mas percebia que uma vez finalizadas ficava triste e descontente.  Daí, veio a saber que Deus o levava pelo melhor que ele imaginava…
  4. Íñigo registrava essas suas experiênciasnum cadernoEstas notas deram origem ao livrinho dos Exercícios Espirituais (EE).
  5. Neste livrinho se lê: Pressuponho haver em mim três espécies de pensamentos, a saber: um que é propriamente meu, e provém simplesmente da minha liberdade e querer, e outros dois que vêm de fora, um do bom espírito e o outro do mau. (EE 32).
  6. Elaborando mais sobre o que sejam as experiências das moções, das consolações e das desolações, podemos dizer:
    1. Moções: São pensamentos que provêm de fora da minha liberdade, solicitam-nos para agir a favor (as boas) ou contra Deus (as más) e repercutem na parte afetiva das pessoas, produzindo paz, alegria, tranquilidade ou perturbação e tristeza, no caso das moções negativas.
    2. Consolações e desolações: Podemos dizer que são os sentimentos ou estados afetivos presentes nas pessoas, resultantes das moções.  As moções de Deus e dos bons espíritos levam às consolações, mais ou menos intensas.  As moções do mau espírito levam sempre à desolação, mas nem toda desolação é do mau espírito.
  7. Nossas atitudes diante das moções:
    1. Perceber. Nos EE e no nosso dia a dia, ficar atento para “perceber” as moções espirituais.
    2. Distinguir as moções: as boas das más. As moções se qualificam pela sua origem e pelos seus efeitos. As que se originam na consolação são de Deus, são boas. São do inimigo as que se originam na desolação. As que levam à paz e tranquilidade e nos encaminham para Deus são boas; as que levam à perturbação e nos afastam de Deus são más.
    3. Acolher as boas moções descartar as más.  Identificar-se com as boas moções e descartar as más moções.
  8. Importância da atenção às moções para maior qualidade de vida. Somos chamados a participar, livremente, com todo nosso ser, na vida e na obra do próprio Deus, através de uma união íntima com o Seu Filho Jesus. A vida espiritual nada mais é do que a vida concreta vivida na fé na ação-presença do espírito de Jesus ressuscitado: O justo vive pela fé (Rm 1,17, Hb 10,38, Gl 3,11). Somos, pois, convidados a viver a própria vida no contexto da percepção e da reta resposta às moções experimentadas. Somos palco da surpreendente experiência do Criador agindo imediatamente com sua criatura e a criatura com seu Criador e Senhor (EE 15) e do inimigo perturbando esta nossa caminhada (EE 318). Os EE nos ajudam a preparar-nos e dispor-nos para este intercâmbio imediato com o próprio Deus.
  9. A vida espiritual não se reduz a voluntarismos na busca de uma perfeição autoprojetada, nem na interiorização de ideologias, nem no seguimento de gurus, nem no se deixar levar por um sentimentalismo vazio e alienante. Fechado em si mesmo, o homem não aceita o que vem do Espírito de Deus. (1 Cor 2,14).
  10. Temos uma vocação dialogal: só se realiza, optando, esclarecidamente (com correto discernimento), em resposta ao convite-presença do seu Criador e Senhor que a atrai e a move para uma união vital, missionária e pascal, com o mesmo Único Criador e Senhor.  Santo Inácio expressa este cunho dialogal na oblação do Reino: Eterno Senhor de todas as coisas, eu faço a minha oblação… Eu quero e desejo e é minha determinação deliberada, se Vossa Santíssima Majestade me quiser escolher e receber em tal vida e estado… (EE 98).
  11. A vocação dialogal da pessoa humana, na existência histórica atual, se concretiza através da descoberta da amorosa vontade do Deus da vida concretizada no cotidiano da nossa vida, em meio às perturbações decorrentes do mistério da iniquidade, ou, segundo a terminologia de Santo Inácio, produzidas pelo inimigo do homem.
  12. O leigo Iñigo percebeu que os diversos espíritos, Deus e os seus anjos, por um lado, e os embaixadores do mistério da iniquidade, por outro, atuam de modos opostos, contraditórios. Deus e os bons espíritos atraem e movem as pessoas para as coisas de Deus e da vida verdadeira; os maus espíritos movem e atraem as pessoas para coisas baixas e terrenas. Os espíritos também atuam de modo diferente, de acordo com a situação da pessoa em que estão atuando. O bom espírito alerta para o fim frustrante de quem vai caminhando de mal a pior e o mau espírito incentiva esta caminhada nefasta. Para quem vai de bem a melhor, o bom espírito anima a caminhada e o mau espírito põe falsos obstáculos para que não prossiga. (EE  314 e 315).
  13. Iñigo percebeu também que os espíritos opostos, Deus e os seus anjos e os representantes do mistério da iniquidade, atuam de modo contraditório, isto é, em oposição um ao outro.  Daí concluiu Iñigo que agir contra o espírito da iniquidade, agir na direção oposta à sugerida pelo inimigo, é agir segundo Deus e ir ao encontro da comunhão com ele.
  14. Íñigo percebeu igualmente que as características da desolação são opostas às características da consolação; como também os pensamentos que saem da consolação são opostos aos que saem da desolação.  (EE 317). Percebeu também que na consolação mais nos guia e aconselha o bom espírito e na desolação, o mau e, com os conselhos deste, não podemos acertar o caminho da vida verdadeira. (EE 318).
Fonte: Centro de Espiritualidade Inaciana – ITAICI, Vila Kostka