VIDA DE MARIA, por EPIFÂNIO, o monge

Segue uma descrição resumida do texto: VIDA DE MARIA, DE EPIFÂNIO O MONGE: contribuição de uma obra da patrística oriental para a mariologia, do professor Afonso Murad, publicado na Revista Atualidade Teológica nº 62/2019 – Departamento de Teologia da PUC-Rio. Boa leitura!

Introdução

Vida de Maria, é considerada uma das mais antigas narrativas de Maria, abrangendo, desde a sua concepção até a glorificação. É uma narração, que mescla a piedade popular e literatura edificante do oriente, data do final do período patrístico (Séc. VIII) e apresenta traços da luta contra a iconoclastia e o impulso místico.

No final da Patrística, a devoção mariana estava bastante desenvolvida no Oriente. Há registros de ícones, hinos e homilias de Germano de Constantinopla, André de Creta e João Damasceno. Do Séc. III até o final do Séc. VIII, há diversos apócrifos sobre Maria, no Oriente, que fazem narrativas: de seu nascimento, infância, concepção; nascimento e educação de Jesus, glorificação da Theotókos.

Epifânio de Constantinopla, era monge e presbítero bizantino, viveu do final do Séc. VIII ao início do Séc. IX, viveu durante muitos anos no Monastério de Calistratos, em Constantinopla. Vale lembrar que a dupla função de Epifânio como monge e presbítero, não era comum naquela região. Também, devido à crise produzida pela iconoclastia, optou Epifânio a uma revalorização da vida dos santos e das representações iconográficas, especialmente da Theotókos.

Epifânio, em sua obra, ordena cronologicamente os acontecimentos sobre a Mãe de Jesus e purifica aquilo que parece contrário à reta fé cristã. Denomina a narrativa, na patrística grega como: “Tratado sobre a Vida e os anos da Santíssima Mãe de Deus” ou “A vida da Theotókos”. A versão em espanhol, ganha o nome de “Vida de Maria”.

O texto trata-se de um ensaio de teologia pastoral mariana. O foco, está na questão: Como este texto, mesmo com o rigor da historiografia contemporânea, contribui para uma compreensão equilibrada sobre a mãe de Jesus e evita os exageros dos apócrifos?

Visão panorâmica da “vida de Maria”

Epifânio se apoia no Protoevangelho de Tiago e incorpora alguns elementos do apócrifo assuncionista de São João Evangelista (o teólogo). Nosso monge afirma que Maria é um exemplo de vida para os cristãos, especialmente àqueles que abraçam a vida monástica.

Em sua composição, Epifânio, fala que Maria e José seriam primos segundo a lei do levirato. E que os pais de Maria, Joaquim e Ana, já viviam juntos há 50 anos, ainda sem descendência; Joaquim vai ao templo e recebe uma revelação, e assim Ana, na velhice concebe Maria, que ganhou este nome, por causa da irmã de Ana.

Epifânio e os apócrifos marianos

Segue a lista dos principais apócrifos, orientais e ocidentais, com referências a Maria:

  1. Evangelho do Pseudo-Mateus (Séc. IV): contém elementos gnósticos, onde Maria é uma supermulher, melhor que todas; Jesus, afirma orgulhosamente ser o mestre;
  2. Evangelho da Natividade de Maria (Séc. II): influência gnóstica, com elementos mágicos, onde Jesus nasce sem parto real;
  3. Protoevangelho de Tiago (PET) – (Séc. III): atribuído a Tiago, irmão do Senhor. Apresenta uma Maria extraordinária, filha de um casal estéril. Este texto teve grande influência na devoção popular (Festa de Santana e consagração a Maria);
  4. História de José (Séc. IV ou V), no Egito: Narra a história de José, contada por Jesus aos apóstolos no Monte das Oliveiras. Maria, aparece a todo momento;
  5. Evangelho armênio da infância (Séc. VI): Fala da relação de Maria com o Menino Jesus. Afirma que Maria recebeu o Espírito Santo pelo ouvido, já que Cristo é a Palavra. Aqui Maria é chamada de nova Eva, Mãe da humanidade. Neste apócrifo, se nomeiam os Reis Magos: Melquior, Gaspar e Balthasar;
  6. Trânsito de Maria do Pseudo-Melitão de Sardes (Séc. IV ou VIII): narra a morte, enterro e glorificação de Maria;
  7. Livro de São João Evangelista (Séc. IV a VI): fala dos detalhes da morte de Maria e sua ida para o céu num domingo;
  8. Livro de São João, arcebispo de Tessalônica: discorre sobre a morte e dormição de Maria.

Importante saber: as pesquisas arqueológicas e documentais atestam que grande parte dos apócrifos não possuem fundamento histórico. Mais grave é a questão teológica, pois vários apócrifos sustentam uma visão equivocada de Jesus, alguns negam sua natureza humana e o realismo da encarnação. Tal percepção se estende a Maria.

Maria em relação a Cristo, aos discípulos e às discípulas

Vida de Maria”, se diferencia em vários aspectos das narrações apócrifas, pois o autor menciona alguns textos bíblicos, mas não os insere em sua narrativa. Se preocupa em narrar a vida de Maria de Nazaré à luz da vida e missão de Jesus Cristo.

Destaca a corrente de solidariedade existente entre as mulheres que convivem com Maria. Segundo Epifânio, o pai de Maria, Joaquim logo morreu, com isto Ana, deixa Nazaré e vai morar em Jerusalém, mas, veio a falecer dois anos depois. Então, Maria órfã, habitava no Templo, e quando precisava de algo, acudia Isabel, que morava perto.

No nascimento de Jesus, a parteira Salomé, cuidava de tudo. Mais tarde, Maria fará parte efetivamente dos seguidores de Jesus, desde a Galiléia.

Epifânio, conta, que por ocasião da morte de Zebedeu, pai de Tiago e João, estes foram lá e enterraram o pai e levaram sua mãe a Cristo. E essa conviveu com Maria (Theotókos), pelo resto da vida. Acrescenta que, Maria e as mulheres fazem parte do grupo efetivo dos seguidores de Jesus e participaram junto aos apóstolos na última ceia.

Já, na Tradição Oriental, a partir dos relatos de Marcos e João elogiam-se as miróforas (são as três mulheres que levam o óleo perfumado para a unção de Jesus, no sepulcro): Joana, Maria e Salomé. Mas, Epifânio, em sua obra, acrescenta outras mulheres, passando a ser sete as miróforas: Maria Madalena; Salomé; Maria, mãe de Tiago; a mulher de Judas, irmão do Senhor; a mãe de José; Joana, que seria a esposa de Pedro e Maria de Cleófas.

Após a morte de Estevão e ascensão do Senhor, os doze permaneceram na casa de João (a santa Sião), lá também viviam Maria e algumas mulheres, talvez até a mulher do apóstolo Paulo.

Maria modelo dos consagrados e consagradas na vida monástica

Maria foi levada ao templo aos sete anos e ali viveu, como virgem consagrada até o início da adolescência. Mais tarde Maria é entregue pelos sacerdotes do templo a José, um velho viúvo.

Maria, aprendeu o hebraico com seu pai Joaquim. Era inteligente, mesmo, depois de órfã, se dedicava as divinas letras. Também executava trabalhos de tecelagem de lã e linho, de seda e algodão. Falava pouco, obedecia com prontidão, era séria, sossegada, fervorosa na oração e bastante humilde.

Mesmo depois como esposa de José, Maria cultiva as peculiaridades de monges e monjas. Qualidades que comporão também o perfil de Madalena, que depois de aderir a Cristo e o seguiu, sempre o fazia em Companhia de Maria.

Maria, com suas práticas de ascese, atendia aos enfermos, libertava os endemoninhados, cuidava dos pobres e das viúvas. Epifânio acrescenta, a respeito da castidade e da sexualidade, pelo fato de ser pura e santa, Maria não teve nenhum desejo sexual. Ou seja, Epifânio traça o perfil de Maria conforme os valores do estado de vida monacal.

Maria, a sempre Virgem

Virgem antes e no parto: Segundo Epifânio, Maria foi entregue por Joaquim e Ana como consagrada no Templo de Jerusalém, com a idade de sete anos. Aos quatorze anos, escolhem o viúvo e velho José, então com setenta anos, para cuidar dela. Na casa de José, acontece a anunciação, que ela guardou em segredo e continuou rezando. Mais, tarde, revela a Isabel e as duas guardavam dentro de si o mesmo mistério. Sobre o parto, Epifânio segue o Protoevangelho de Tiago: “como o parto fora singular e extraordinário, Maria se encontrou virgem como antes do parto”.

A opção celibatária por toda a vida: José, o carpinteiro e primo de Maria? Já havia sido casado com uma tal Salomé, de quem ficara viúvo e tivera sete filhos: Tiago, Simão, Judas, José, Sobe, Marta e Maria. Epifânio, concilia a virgindade perpétua de Maria, com a questão dos irmãos de Jesus. Cabe registrar, que conforme o apócrifo, Maria deveria ser retirada do templo antes da primeira menstruação, para que o sangue não contaminasse o santuário, por isso foi entregue a José.

A dormição de Maria

Epifânio dá muita importância ao evento da passagem de Maria para a Vida Eterna, pois, era um dos pontos altos da piedade mariana no oriente, em sua narrativa sobre a dormição, retira vários elementos mágicos dos apócrifos, enfatizando o caráter revelatório do evento.

No processo da dormição, Maria revela os segredos de sua vida, que ainda não vieram à tona. Como a visita do anjo Gabriel quinze dias antes de sua morte, onde o arcanjo, apresenta a Maria todo o seu trânsito e a vinda do Senhor; com isto, Maria convoca todos os apóstolos e revela os mistérios que guardava em seu coração: a saudação do anjo, a aparição, a manifestação quando orava no Templo.

Cristo apareceu no resplendor de sua luz, todos se prostraram por terra. Disse: “A paz esteja convosco”. Os anjos entoavam hinos, os homens em silêncio. Maria, como num suave sono, abriu a boca e entregou o seu espírito ao seu Filho e seu Deus, com a idade de setenta e dois anos. Depois, depositaram o corpo de Maria no sepulcro do Getsêmani, onde seu corpo se fez invisível. Os homens cantaram hinos e voltaram as suas casas.

Conclusão

Vida de Maria, de Epifânio o Monge, é um relato precioso da patrística oriental, com significativas contribuições para a pastoral e a reflexão mariana no nosso tempo.