SERMÃO DO AREÓPAGO

Resenha do livro: CRISTO, A IGREJA E O MUNDO, Catequeses do Areópago por Karol Wojtyla. Ed. Quadrante, São Paulo, 2019.

A partir do Livro dos Atos dos Apóstolos 17,16-34, o então Cardeal Karol Wojtyla (São João Paulo II), nos presenteou com uma série de catequeses sobre o célebre sermão de São Paulo no Areópago de Atenas, onde trata de um diálogo, como nossas angústias e incertezas. Com a finalidade de revelar que o anúncio cristão continua, diante da redenção operada por Jesus Cristo.

A Catequese trata do Deus desconhecido, onde Paulo ao chegar a Atenas, penetrou no centro da cultura, da filosofia, da arte e da religião do mundo antigo. Paulo, um fariseu convertido a Cristo, alguém que antes perseguia a Igreja nascente, e ao discursar no Areópago manifesta o encontro do legado espiritual de Israel com o legado da Grécia.

At 17,16: “Enquanto Paulo os esperava em Atenas, seu espírito se inflamava nele ao contemplar aquela cidade cheia de ídolos”. A idolatria imperava na cidade e o coração de Paulo se enche de amargura.

At 17,22-23: 22De pé, no meio do Areópago, Paulo falou: “Atenienses, vejo que vós sois, sob todos os aspectos, muito religiosos. 23Percorrendo, com efeito, vossa cidade e considerando vossos monumentos sagrados, encontrei até mesmo um altar com a inscrição: ‘Ao Deus Desconhecido’. Aquele que vós adorais sem conhecer, eu venho anunciar-vos”.

A partir deste olhar, Wojtyla nos leva até a Declaração do Concílio Ecumênico Vaticano II, de 1965 – “Nostra aetate”, que nos diz, em seu nº 1:

“Os homens esperam das diversas religiões resposta para os enigmas da condição humana, os quais, hoje como ontem, profundamente preocupam seus corações: que é o homem? qual o sentido e a finalidade da vida? que é o pecado? donde provém o sofrimento, e para que serve? qual o caminho para alcançar a felicidade verdadeira? que é a morte, o juízo e a retribuição depois da morte? finalmente, que mistério último e inefável envolve a nossa existência, do qual vimos e para onde vamos?”

Hoje, o que parece constituir o cerne da experiência religiosa é o valor que damos ao sagrado, e a Religião, consiste na busca de respostas a perguntas fundamentais sobre a existência humana. Voltemos ao areópago, no discurso de Paulo:

At 17,27: “a fim de que busquem a Deus para atingi-lo, se possível, andando como que às apalpadelas, embora não esteja longe de cada um de nós”.

Assim, para o Apóstolo Paulo, o altar ateniense com a inscrição “Ao Deus desconhecido” significa a expressão da religião como busca de Deus, que em 1965, a Declaração Nostra aetate, em seu nº 2,  nos fala do hinduísmo e do budismo, apontando características de ambos os sistemas religiosos, onde destaca, que todas as religiões “vão ao encontro das inquietações do coração humano”, confirmando que o antigo homem de Atenas, procurava com aquela inscrição, expressar seu sentimento religioso.

Podemos até afirmar, que a religião dos gregos aquela época, estava associada a uma mitologia rica e com características marcadamente antropomórficas, o que deixava o coração de Paulo amargurado (At 17,16), por isto, Paulo conclama os Atenienses, apontando para o Deus desconhecido, e diz: “O que adorais sem o conhecer, eu vo-lo anuncio!” (At 17,23).

É importante atualizarmos as palavras de Paulo, conforme nos faz o Magistério da Igreja, ainda a partir da Nostra aetate nº 2: “A Igreja Católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo”. Tal como, autores cristãos, como São Justino, São Clemente de Alexandria, que não hesitavam em falar das “sementes do verbo”.

E as catequeses se prolongam falando de um Deus, que é Aquele que é,,, ou seja, Deus é existência, porque é eterno e diante da eternidade de Deus, se encontra o ser humano frente a esta verdade; que deve estar sempre em prontidão para ouvir a voz de Deus em seu interior. Mas, diante desta verdade, de um Deus eterno, nos vemos em nossa liberdade, onde, nos identificamos como filhos deste Deus e que fomos criados para amar. Fomos criados por Deus, para amar, reverenciar e servir.

O Papa continua apontando outros exemplos, agora, sobre a verdade da Ressurreição, e retoma encontro de Paulo com o ressuscitado, onde de perseguidor passou a grande divulgador do Evangelho. Paulo, destrói em si o homem velho, que desaparece e ressuscita o homem novo. Nossa vida é uma luta, é Paixão, frente à verdade, que mexe e remexe em nosso interior para ressuscitarmos a cada dia.

Em outro ponto, o papa nos fala do mistério da Encarnação, mistério que é plenitude de doação a Deus. O Pai e o Filho, pela força do Espírito, se fazem um, para colocar no centro da Trindade o ser humano, que por sua vez deve caminhar, tendo como centro a Trindade. Usar da memória, para lembrar que veio do Pai; inteligência para entender que foi criado à imagem e semelhança do Filho; e vontade para ser conduzido pela força do Espírito Santo. Em outro ponto, o papa destaca o Mistério da nossa Redenção, pois Jesus é a salvação, é amor, pois passando pela Paixão, desvela o sofrimento, revelando ao homem ao próprio homem, pois não existe ressurreição sem paixão.

Continuando em sua catequese, nos apresenta o tema: a Eucaristia e a Igreja, onde destaca a Santa Missa, local por excelência onde fazemos memória da Última Ceia e na Igreja, que a partir da força da Eucaristia, renovamos em nós, a força do Espírito Santo para agir no mundo, pois Jesus quer que sejamos suas testemunhas, para levar as pessoas aquele Deus desconhecido e fazer d’Ele um Deus reconhecido.

Enfim, este Deus se torna reconhecido no meio de nós, a partir da vivência do amor, que é redentor e esponsal, pois Iahweh amou o povo, Cristo amou a Igreja e nós devemos amar: a Deus, ao próximo, a nós mesmos e a natureza (um cuidar da nossa casa comum). E fechamos todo este processo, agradecidos a este Deus maravilhoso, nos colocando, diante d’Ele, de forma plena, em oração.