Maria, na Sagrada Escritura (12)

A participação de Maria no Reino de Deus

Carta de São Paulo aos Gálatas

O tema central do ensinamento paulino é Jesus Cristo. Seus ensinamentos são cristocêntricos, nada falam das palavras e obras de Jesus, mas concentram-se nos mistérios pascais de Cristo e na participação da humanidade nesses mistérios pela morte e ressurreição de Jesus. Seu critério de santidade é se centralizar em Cristo e seus mistérios por intermédio da . A Carta provavelmente foi escrita por volta do ano 54 dC. Nessa carta, Paulo tenta manter a comunidade da Galácia fiel ao Evangelho que havia pregado, pois o povo ainda obedecia a preceitos judaicos da Lei, que era defendido por uma facção conservadora da Igreja local.

Nascido de uma mulher

Paulo está ansioso para proclamar aos gálatas que a nova criação é agora realidade porque o Filho de Deus veio em Maria:

4Mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à lei, 5para resgatar os que estavam sujeitos à lei, a fim de recebermos a adoção filial.

Gl 4,4-5.

A frase nascido de uma mulher é expressão comum no judaísmo para indicar a condição humana da pessoa. Maria, é com certeza, a mulher mencionada nessa passagem. Assim, como Paulo tem pouco a dizer sobre Jesus e os acontecimentos de sua vida, menos ainda, tem a dizer sobre sua mãe, Maria. Para Paulo, Maria é apenas a mulher que trouxe Jesus ao mundo.

Para avaliar a teologia paulina em Gálatas 4,4, temos de situá-la no contexto da discussão precedente em Gálatas, quando ele compara a situação de seres humanos sob a Lei com a fé de Cristo:

…o homem não é justificado pelas obras da lei, mas só pela fé em Jesus Cristo…

Gl 2,16.

E, novamente;

…a lei nos serviu de educadora até Cristo, para obtermos da fé nossa justificação.

Gl 3,24.

Para Paulo, é importante que, em Jesus Cristo, somos todos filhos de Deus pela fé (Gl 3,26). Gálatas 4,4 também se situa dentro de uma discussão dos verdadeiros filhos e filhas de Abraão (Gl 4,1-31), a quem ele chama de filhos da promessa (v.28), nascidos segundo o espírito (v.29).

Sob a Lei, homens e mulheres estavam em condição inferior. Eram como crianças ou menores, sujeitos a um pedagogo (Gl 3,25) e a tutores e curadores (Gl 4,2). Mas Jesus foi enviado pelo Pai para libertá-los da Lei e assegurar-lhes a posição de herdeiros e filhos de Abraão. Jesus não veio inaugurar apenas uma nova era, mas uma nova humanidade. Mais adiante no texto, Paulo menciona os dois filhos de Abraão, um de mulher livre, Sara, e o outro da serva Agar (Gl 4,22-24). Nessa passagem, onde Sara é descrita como modelo e mãe dos fiéis, ele prepara o terreno para uma apresentação posterior de Maria como mãe de todos os fiéis.

A plenitude do tempo aí mencionada pelo apóstolo é termo de começo, de um itinerário através do qual Deus conduziu seu povo, falando-lhe e revelando sê-lhe muitas vezes e de modos diversos; começo de um novo estado de coisas no qual o próprio Deus toma carne e rosto humanos no seio da história, no meio de um povo do qual a mulher, Maria, é a figura fiel”. (Gebara & Bingemer, Maria, Mãe de Deus e mãe dos pobres, p.69).

O nascimento de Jesus na história é o acontecimento salvífico que permite a todos, judeus e gentios, se tornarem herdeiros da herança prometida a Abraão. A figura da mulher judia que dá à luz o Messias sob a lei do judaísmo é sinal de que o Reino de Deus chegou. O mistério da encarnação do Filho de Deus na plenitude do tempo é, portanto, o eixo central da história e é essa mulher que forma, de sua carne e sangue, a carne e sangue que serão reconhecidos como a pessoa do próprio Deus pisando os caminhos da história.

Fonte: Coyle, Kathleen. MARIA TÃO PLENA DE DEUS E TÃO NOSSA. Ed. Paulus-São Paulo-SP, 2012.