Maria, na Sagrada Escritura (14)

Maria em Marcos – Parte 1

No Evangelho de Marcos há duas passagens sucintas sobre Maria (Mc 3,31-35; 6,3), que “não apresenta nenhuma característica particular de Maria, fala dela, mas não fala sobre ela” (Murad). Neste tópico focaremos apenas na primeira passagem (Mc 3,31-35).

Mc 3,31-35

A cena descrita nessa passagem, estão ligadas a trechos anteriores:

  • Jesus e os doze, recém-eleitos “para que ficassem com ele” (Mc 3,13-19), vão a uma casa, talvez a de Simão Pedro, em Cafarnaum (cf. Mc 1,21.29; 2,1);
  • Havia uma multidão aglomerada, a tal ponto que eles nem podiam se alimentar (Mc 3,20);
  • E Marcos, continua a narrativa: “e quando os seus” (Mc 3,21) tomaram conhecimento disso, saíram para detê-lo, porque diziam: “enlouqueceu” ou “está fora de si” (Mc 3,21).

As implicações marianas desse episódio poderiam derivar dos vv. 31-35 do terceiro capítulo.

  • Neles, Marcos agrega a seguinte notícia: “chegaram então a sua mãe e seus irmãos e, ficando do lado de fora, mandaram chamá-lo”;
  • Havia uma multidão sentada em torno dele”. Disseram-lhe: “Tua mãe, e teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te procuram”;
  • Ele perguntou: “Quem é minha mãe e meus irmãos?”;
  • E, percorrendo com o olhar os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe”.

Muitos exegetas sustentam que os vv. 20-21 devem ser ligados aos vv. 31-35. Consequentemente, os “seus” mencionados no v.21, devem ser identificados com a mãe e os irmãos de Jesus. Aqui surge a questão referente a Maria: ela também estaria envolvida no juízo que os familiares de Jesus manifestam em relação a ele (“enlouqueceu!”)? Essa leitura é aceitável?

O que pensar de Maria?

Marcos, levanta o véu sobre esse traço tão humano de Maria de Nazaré. A imagem que ele nos oferece dela é a de mulher maternalmente solícita pela sorte do filho. Não é de surpreender que, um dia, quando se tramava contra a vida de Jesus (Mc 3,6), Maria também acorresse, quase que para induzi-lo a tomar maiores precauções. Ela podia estar entre os primeiros a nutrir preocupações ainda muito humanas pela missão e a obra de Jesus.

Não é efetivamente o caso de relegar Mc 3,20-21.31-35 às passagens chamadas “antimariológicas”. Quando muito, ele é um precioso testemunho dos verdadeiros laços que criam a comunhão com Jesus. Marcos ensina que até Maria, a criatura mais estreitamente ligada a Jesus pelos laços de sangue, teve que se elevar a ordem mais alta de valores. As exigências da missão do Filho a induziam por vezes a renunciar às suas opiniões (aliás, humaníssimas) de mãe segundo a carne. Depois de ter levado Jesus no ventre, era preciso que ela o gerasse no coração, cumprindo a vontade de Deus (cf. Mc 3,35), uma vontade que se tornava manifesta naquilo que Jesus dizia e realizava. Nesse nível de profundidade, a figura de Maria “mãe” se harmoniza e se completa com a figura da “discípula”.

Fonte: Fiores, Stefano / Meo, Salvatore. Dicionário de Mariologia, verbete: Bíblia, Serra, Aristide,osm. Ed. Paulus, São Paulo-SP, 1995.