Maria, na Sagrada Escritura (19)

Maria em Mateus – Parte 4

Quatro mulheres na genealogia. Por quê?

Mateus (1,1-17) (diferentemente de Lucas 3,23-38) põe quatro mulheres nos elos da cadeia genealógica de Jesus:

  • Tamar (v.3) / marido: Judá;
  • Raab (v.5a) / marido: Salmon;
  • Rute (v.5b) / marido: Booz;
  • E “aquela que foi a Mulher de Urias” (v.6b), que é Betsabéia / marido: Davi.

Para a mentalidade bíblico-semítica (que é masculinizada) quem gera é o homem, ao passo que a mulher gera para o marido. Mateus sabe muito bem disso, pois une o nome das mulheres aos respectivos maridos. Diz-se que Mateus não costuma valorizar as mulheres. Mas, aqui, na abertura de seu Evangelho, faz uma exceção. Qual a razão?

a) Porque são pecadoras / b) Porque são estrangeiras / c) Porque cada uma delas, realizou gestos beneméritos para a sorte do povo de Israel.

Vejamos cada caso:

a) Pecadoras: São Jerônimo, comenta que o evangelista citou várias vezes que Jesus veio salvar seu povo do pecado: Mt 1,21; 9,2-6.10-13;18,11-14…, mas seria o caso de Rute? – esta foi apresentada como mulher virtuosa, embora viesse de uma terra pagã: Moab (Rt 1,1ss). Também, no que se refere a Tamar, o próprio Judá reconheceu: “Ela é mais justa do que eu” (Gn 38,26).

O texto bíblico de Js 21,1-21 e 6,17.22-25, mostra que Raab é celebrada como heroína. E, quanto a Betsabeia, deve-se notar que o pecado recaiu sobre Davi, que mandou raptá-la (2Sm 11,4;12,1-14).

b) Estrangeiras: Tamar e Raab eram de Canaã; Rute era moabita, pode ser que Betsabéia fosse de origem estrangeira. Mateus inclui as quatro mulheres como prelúdio à salvação universal que ele veio trazer (Mt 2,1-12; 8,11-12; 28,18-19).

c) Gestos beneméritos para o povo de Israel:

  1. Tamar, fingindo-se prostituta, impediu que se extinguisse a raça de Judá (Gn 38), da qual devia surgir o Messias (Gn 49,10).
  2. Raab, escondendo os espiões de Josué e professando a sua fé em Javé, favoreceu o ingresso dos israelitas na terra de Canaã (Js 2), passando a ser considerada como modelo de fé (Hb 11,31).
  3. Rute, embora natural de Moab, seguiu a sogra a Israel e, para suscitar uma descendência ao marido falecido, como prescrevia a lei mosaica, desposou Booz, seu parente próximo. E assim, nasceu Obed, avô de Davi (Rt 1-4).
  4. Betsabéia, intercede junto a Davi, para que Salomão (e não Adonias) se tornasse herdeiro do trono (1Rs 1,11-40), segundo a profecia de Natã (2Sm 7,8-16; 12,24-25).

O papel desempenhado por Tamar, Raab, Rute e Betsabéia foi de primeira linha, mas, porque o evangelista não citou aquelas que foram as mães de Israel por excelência: Sara, Rebeca, Raquel, Lia e outras?

A tradição judaica tinha consciência de que havia na maternidade de Tamar, Raab, Rute e Betsabéia algo de não regular, ainda que pecaminoso. Na realidade, o judaísmo próximo do NT considerava que fôra o Espírito Santo quem guiara essas mulheres em suas peripécias, para que se tornassem instrumentos providenciais para a vinda do Messias e permanecessem fiéis à sua tarefa. O que vale também para Rute, (pois diziam, nos ambientes judaicos), que era estéril e foi curada o por obra do Espírito Santo.

Assim, em certo sentido, estava espelhada naquelas quatro mulheres a intervenção do Espírito Santo na maternidade de Maria e na situação de José. Deve se registrar também as marcantes divergências entre as tais mães de Israel e a mãe de Jesus: Maria tem missão absolutamente original – e seria exatamente isso que Mateus pretenderia evidenciar.

Mateus quer sublinhar que a História da Salvação é conduzida pela soberania de Deus e por mais ninguém. Também, quer mostrar por que caminhos e descaminhos passou o Messias para chegar até nós e carregar, assim, os pecados da história humana. Na genealogia, inaugurando a nova história da graça, passa pela Mulher, não pelo Varão, que dominou e continua a dominar a cena da velha história do pecado.

Fonte:

Fiores, Stefano / Meo, Salvatore. Dicionário de Mariologia, verbete: Bíblia, Serra, Aristide,osm. Ed. Paulus, São Paulo-SP, 1995.
Boff, Clodovis,OSM. INTRODUÇÃO À MARIOLOGIA. Ed. Vozes, Petrópolis-RJ. 6ª Edição, 2012.