Maria, na Sagrada Escritura (2)

Maria, nos Evangelhos

Jesus Cristo é a mensagem central do Novo Testamento. E, os evangelistas desejam manter vivos os fatos para animar os cristãos e ajudar as pessoas a refazerem a experiência que os discípulos tiveram com Jesus. Hoje, depois de tantos séculos, lemos o Evangelho, e captamos a atualidade de suas palavras em nossas vidas.

Todo conhecimento ou informação é também interpretação. Quando assistimos, os diversos telejornais nos canais de TV. dificilmente eles contam os fatos do mesmo jeito, ou quando, passamos diante de uma banca de revistas, observe as manchetes dos vários jornais. Não existem fatos em estado puro, são todos interpretados a seu modo.

Na ciência bíblica, temos a importância da interpretação, chamada de hermenêutica. Pois, os Evangelhos foram escritos, mais de quarenta anos depois que Jesus havia passado na palestina. Os gestos e palavras de Jesus foram reinterpretados a partir do contexto e da experiência de fé das comunidades. Assim, temos quatro Evangelhos, embora Jesus seja um. Cada evangelista, inspirado pelo Espírito Santo, revive a experiência de sua(s) comunidade(s).

O Evangelho se assemelha a uma linda colcha de retalhos, tecida por Mateus, Marcos, Lucas e João. Os casos e as palavras de Jesus, que cada um recebeu da tradição oral, são como os retalhos, que possuem seu valor e beleza, quando ligados com os fios da visão teológica do evangelista:

  • Marcos: menos retalhos. Destaca a atuação de Jesus, que inaugura o Reino de Deus e combate as forças do mal;
  • Mateus e Lucas: recebem retalhos sobre a infância de Jesus e algumas pregações do Senhor.
    • Mateus: mostra como Jesus realiza as promessas de Deus dirigidas ao povo judeu;
    • Lucas: destaca a misericórdia de Deus e a salvação;
  • João: Retrabalha tudo, pois foi o último dos evangelistas e faz um belo bordado, pois escreve de outra forma.

Os Evangelhos, conjunto de lindas e coloridas colchas, tecidas com o fio da criatividade humana e da ação do Espírito Santo. Embelezam a nossa vida, nos dá aconchego, nos cobre com a luz de Deus e aquecem o coração.

Os Evangelhos foram escritos para falar de Jesus Cristo. Maria aparece em referência a Ele e à comunidade de seus seguidores. Então, os textos sobre Maria nos Evangelhos são como parte ou detalhes, que podemos identificar em sete chaves:

  • Para um estudo sério sobre Maria, consiste em conhecer o que a Escritura diz sobre ela. É a base sólida que fundamenta: culto e dogma;
  • Uma leitura teológica do texto bíblico, é um ir além da concepção literal ou devocional. É uma tarefa interpretativa ou de hermenêutica;
  • Levar em conta o gênero literário do relato bíblico;
  • Cada citação sobre Maria, deve ser compreendida no contexto do livro onde está situada;
  • Os textos sobre Maria foram escritos com os olhos centrados em Jesus e na comunidade de seus seguidores. A Mariologia bíblica parte de princípios de Jesus Cristo e das primeiras comunidades;
  • Cada livro da Sagrada Escritura faz parte de um grande livro, onde um completa o sentido do outro. Assim, a visão dos escritos pelos evangelistas, embora sejam diferentes, tornam-se complementares;
  • O Evangelho é Boa Notícia para a atualidade. Só encontramos o sentido dos textos quando eles nos dão luz para compreender nossa existência e viver a fé com mais intensidade. Releitura e atualização fazem parte da leitura bíblica.

Nos escritos mais antigos, como as Cartas de São Paulo, só se fala da passagem sobre Maria em Gl 4,4.

Marcos coloca Maria no meio dos familiares de Jesus, sem dizer nada sobre ela (Mc 3,31-35; Mc 6,1-6).

Mateus apresenta Maria como a mãe virginal do Messias, unida a seu Filho (Mt 1,18-23; Mt 2,11.13.14.20).

Lucas e João, mostram as qualidades humanas e espirituais de Maria e o Apocalipse, apresenta Maria como imagem da comunidade cristã.

Fonte: Murad, Afonso. Maria toda de Deus e tão humana, compêndio de Mariologia. Ed. Paulinas – São Paulo/SP e Santuário – Aparecida/SP, 2015.