Maria, na Sagrada Escritura (22)

Maria em Mateus – Parte 7   

Interpretação de Is 7,14 em Mt 1,22-23

Mateus relê o texto de Isaías em sentido messiânico e mariológico, onde destaca três importantes pontos:

  • A concepção virginal de Jesus Cristo;
  • Afirma que não houve concurso de homem para o nascimento de Jesus;
  • Jesus descende da dinastia davídica.

Vejamos os textos Mt 1,22-23: 22Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta com estas palavras: 23“A virgem conceberá e dará à luz um filho, a quem chamarão Emanuel, nome que significa ‘Deus conosco’”.

E Mt 1,20: Enquanto planejava isso, teve um sonho em que lhe apareceu um anjo do Senhor para dizer-lhe: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como esposa, porque a criança que ela tem em seu seio vem do Espírito Santo.

No trecho de Mt 1,21.24: 21Ela terá um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele salvará seu povo de seus pecados”. 24Quando acordou, José fez o que o anjo do Senhor havia mandado. Levou sua esposa para casa. Inserindo-o na sociedade hebraica como filho de Davi. Vislumbramos a paternidade legal.

A luz desse evento extraordinário, Mateus repensa as circunstâncias da profecia de Is 7,14 e conclui que elas adquirem o seu sentido pleno agora, que Maria concebeu Cristo por obra do Espírito. Esta releitura de Mateus tem dois aspectos: a) um diz respeito ao Messias; b) e outro à Mãe do Messias.

O Messias

No tempo da guerra sírio-efraimita a sobrevivência da dinastia davídica foi assegurada pelo nascimento do Emanuel-Ezequias, da mesma forma o nascimento de Cristo da estirpe de Davi garante, por parte de Deus, a estabilidade da descendência davídica, que agora se prolonga na Igreja.

A figura de Ezequias, tão celebrada pelo profeta em Is 7,14-15, também pode ser confirmado em Is,8-5-10; Is 9,5-6; e em Is 11,1-9.

Jesus é o verdadeiro Emanuel, o Deus conosco, “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos Séculos!” (Mt 28,20). A tradição lucana diria ainda mais explicitamente que Deus “lhe dará o trono de Davi, seu pai, ele reinará na casa de Jacó para sempre e o seu reinado não terá fim” (Lc 1,32-33; cf. 2Sm 7,16). A nova casa de Davi é agora a Igreja de Cristo (Mt 16,18: ‘edificarei a minha igreja’). Ela goza de estabilidade perpétua porque Jesus vive nela. “As forças do mal não prevalecerão” (cf. Mt 16,18). Pois, o amor vence a morte. Em Cristo ressuscitado, agindo na Igreja, revela-se a onipotência de Deus, o “Deus conosco”.

A mãe do Messias

O sentido mariológico da profecia isaiana, segundo a citação de Mateus, está na pessoa da mãe do Emanuel-Ezequias. Assim ela deu à luz um filho que garantiu a continuidade da casa de Davi também Maria deu à luz um filho que reinará para sempre no trono de Davi, na casa de Jacó, no “Israel de Deus” (cf Mt 28,20; 16,18; Gl 6,16; 2Sm 7,16); note-se a realeza das duas mães. Ademais, assim como o nascimento de Ezequias teve caráter de prodígio enquanto foi preanunciado pelo profeta como “sinal”, também o nascimento de Cristo foi sumamente religioso, já que ele foi concebido por uma virgem, unicamente por obra do Espírito (Mt 1,18.20).

Conclusão

  • Is 7,14 foi o primeiro dos oráculos do AT a ser entendido também em sentido mariológico por um autor do NT.
  • Nele está “oculta profeticamente” (cf. LG 55) a Virgem Maria.
  • Se diversos Padres, como Justino, referiam essa profecia diretamente a Cristo e a Maria, muito provavelmente isso ocorreu por influência da polêmica com os meios judaicos, que negavam qualquer conteúdo cristológico do AT.
  • Entretanto, respeitando a economia progressiva e historicista da relação, podemos ver que somente a partir do testemunho de Mateus é possível perceber a figura do Salvador e de sua mãe por detrás dos véus das personagens-tipo do rei Ezequias e da rainha-mãe Abia.
  • Aquilo que ocorreu no tempo do rei Acaz alcança agora o seu cumprimento perfeito e definitivo no mistério da concepção virginal de Cristo, “filho de Davi” (cf. Mt 1,20) e “Deus conosco” (Mt 1,23).
  • O NT leva o AT ao seu cumprimento, superando-o.
Fonte: Fiores, Stefano / Meo, Salvatore. Dicionário de Mariologia, verbete: Bíblia, Serra, Aristide,osm. Ed. Paulus, São Paulo-SP, 1995.