Maria, na Sagrada Escritura (23)

Maria em Mateus – Parte 8   

Humanidade de Cristo, obra do Espírito

Ao nos debruçar, sobre a “origem humana de Cristo por obra do Espírito”, na forma transmitida por São Mateus em seu Evangelho, estaremos diante de dois desdobramentos:

  1. As afirmações do que foi perfeitamente enunciado pelo evangelista a propósito do assunto;
  2. A cuidadosa alternância dos verbos em grego: gennáo (= gerar) e tikto (= parir, dar à luz), quando o discurso toca a maternidade de Maria.

No primeiro ponto, captamos as afirmações do evangelista, que Maria está grávida por obra do Espírito Santo, usa palavras claras sobre a concepção virginal de Jesus. Escreve em 1,18: “Sua mãe Maria, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se grávida por obra do Espírito Santo”. Volta a tratar do assunto na mensagem do anjo a José: “…Porque o que nela foi gerado vem do Espírito Santo” (v.20). E o encerramento do relato: “[José] recebeu em casa sua esposa. Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho, que ele chamou com o nome de Jesus” (vv. 24-25).

No segundo ponto se destaca a distinção entre gennáo (= gerar) e tikto (= parir, dar à luz). Distinção esta quando falam da Virgem que concebe e dá a luz Jesus. Percebemos certo embaraço no estilo dos evangelistas “Mateus” e “Lucas”, a propósito do assunto. O Filho de Deus (fato decididamente único na história humana!) encarna-se no ventre de mulher sem a colaboração masculina; é a energia do Espírito que plasma nas suas entranhas a humanidade do Verbo.

  1. Gennáo é o termo clássico que designa a “procriação”, a transmissão da vida de pai para filho. Sendo de natureza “genealógica”, o seu acento semântico recai mais sobre o pai do que sobre a mãe.
  2. Tikto significa “parir, dar à luz”, e é evidente, pois, que se refira à mulher como mãe.

Ora, tanto “Mateus” quanto “Lucas” empregam o verbo tikto para designar a função biológica de Maria que concebe e dá à luz Jesus; ao mesmo tempo evitam recorrer à gennáo. A razão de tal opção é devida ao fato de que a maternidade de Maria é virginal.

  • Mt 1,25: Ela, diz o anjo a José, “dará à luz um filho”. Cumpria-se assim o oráculo de Is 7,14 (na versão da LXX): “Eis que a virgem conceberá [literalmente: “terá no ventre”] e dará à luz um filho, que será chamado Emanuel”;
  • Mt 2,2a: Jesus, portanto, pode ser definido com as palavras dos magos, quando perguntam: “Onde está o rei dos judeus que foi dado à luz?” (o techthéis). Não dizem “que foi gerado”.
  • Lc 2,11: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor”.

Em todo o NT, somente nos trechos acima e em Lc 2,11 aparece o verbo tikto no sentido de “nascer”. Mas, para compreender que Jesus é o techthéis (= o que foi dado à luz), isto é, que nasceu de sua mãe por virtude direta do Espírito, é necessária revelação celeste.

Como alternativa de tikto está gennáo em Mt 1,16b.20 e 2,14. onde se trata de mostrar como Jesus se inseria na cadeia das gerações humanas que começam com Davi e Abraão. No v.16, fica claro que “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual foi gerado (egénnethe) Jesus chamado Cristo”. Sugere que Jesus nasceu efetivamente da esposa de José, sem ser fruto do sêmen ou esperma de José. E é o que Mateus explica logo depois nos vv. 18-25, ou seja, no ventre de Maria “produziu-se”, “germinou” uma vida por virtude do Espírito; o seu parto será real, não fictício (v.21).

O uso de gennáo no passivo em Mt 2,1.4 enfatiza, o aparecimento externo de Cristo no nosso mundo. Se antes se falava do mistério oculto operado no ventre da Virgem, agora se quer dizer quando e onde Cristo veio a constituir parte de uma sociedade, no meio de nós. E isso aconteceu “em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes” (2,1; cf o v.4).

Fonte: Fiores, Stefano / Meo, Salvatore. Dicionário de Mariologia, verbete: Virgem, Serra, Aristide,osm. Ed. Paulus, São Paulo-SP, 1995.