Maria, na Sagrada Escritura (24)

Maria em Mateus – Parte 9  

Irmãos de Jesus – Mt 1,25

“Irmãos” de Jesus em sentido estrito, isto é, filho de Maria. Motivo pelo qual se crê poder estabelecer um critério de entendimento.

Podemos partir do vocábulo grego “anépsios” (=primo). O NT conhece o termo grego anépsios; ele é usado em Cl 4,10 para dizer que Marcos é primo de Barnabé. Deduz-se, portanto, que os autores do NT teriam empregado o mesmo termo se os irmãos do Senhor não tivessem sido verdadeiramente tais.

“Aristarco, meu companheiro de prisão, vos saúda, como também Marcos, primo de Barnabé, sobre o qual recebestes instruções:…”

Cl 4,10

A objeção não é premente, não tem cunho obrigatório. A Septuaginta, por exemplo, conhecia tanto o grego quanto o hebraico; não obstante, traduziu servilmente o original hebraico, também onde o termo “irmão” indica relação de parentesco bem mais larga. Existe ainda outro motivo pelo qual, em grego, se conservava a expressão original semítica. Como vemos, por meio de At 1,14 e 1Cor 9,5, os “irmãos do Senhor” isto é, os seus parentes do sexo masculino, formavam um grupo distinto, ao lado dos apóstolos. Gozavam, portanto, de especial reputação, motivo pelo qual eram denominados “irmãos do Senhor” era título honorífico no seio da Igreja primitiva. As comunidades de língua grega não ousaram mudá-lo.

Duas passagens evangélicas em particular, parecem comprovar que os irmãos de Jesus são filhos de Maria: Mt 1,25 e Lc 2,7.

“e, sem que a ela se unisse, ela teve um filho. E José lhe deu o nome de Jesus”.

Mt 1,25

Seria de concluir, que depois do nascimento de Jesus, José tenha consumado o matrimônio com Maria que, por conseguinte, teria tido outra prole.

Analogamente, não supõe nem implica que José tivera relações carnais com Maria depois do nascimento de Jesus. A intenção do evangelista é a de demonstrar que Jesus é filho de Davi (1,1), apesar de não ser pai humano (1,18-25). Está, porém, fora de sua perspectiva a questão da virgindade de Maria depois do parto. Mateus não apresenta argumentos nem pró nem contra.

“E Maria deu à luz seu filho primogênito; envolveu-o em faixas e o deitou num presépio, porque não havia lugar para eles na hospedaria”. 

Lc 2,7

Se Jesus era o primogênito de Maria, raciocinam e argumentam alguns, quer dizer que não era o único filho dela. Na literatura hebraica há vários exemplos em que um filho primogênito também é unigênito. Vejamos o paralelismo de Zc 12,10.

“Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de graça e de súplica, e eles olharão para mim. Quanto àquele a quem traspassaram, farão luto por ele como se faz pelo filho único, e o chorarão amargamente como se chora o primogênito”.

Zc 12,10

Mas poderemos dar ainda maior destaque ao fato se levarmos em conta o temperamento próprio da cultura hebraica. Segundo a bíblia, o primeiro filho, mesmo que único, é qualificado como “primogênito” porque sujeito à obrigação de resgate.

“’Consagra-me todo primogênito; as primícias de todo seio entre os israelitas, tanto dos homens como dos animais, são minhas’. reservarás para Javé todo primogênito e toda primeira cria dos animais que tiveres: se for macho, será para Javé”. 

Ex 13,2.12

“Todo primogênito de qualquer ser vivo, oferecido a Javé, tanto de homens como de animais, será teu; mas cuidarás que sejam resgatados os primogênitos dos homens e do mesmo modo farás resgatar os primogênitos dos animais impuros…”

Nm 18,15-16

Por isso, também Jesus, sendo o primogênito de sua mãe (Lc 2,7), será depois apresentado no templo para este rito (Lc 2,22-24).

“E Maria deu à luz seu filho primogênito; envolveu-o em faixas e o deitou num presépio…”

Lc 2,7

“…conforme o que está escrito na lei do Senhor: ‘Todo primogênito do sexo masculino seja consagrado ao Senhor’…”

Lc 2,22-24
Fonte: Fiores, Stefano / Meo, Salvatore. Dicionário de Mariologia, verbete: Virgem, Serra, Aristide,osm. Ed. Paulus, São Paulo-SP, 1995.