Santa Maria do Monte Carmelo

O título Santa Maria do Carmelo, que faz referência ao monte da Galileia e liga a uma ordem que teve origem no mesmo monte, representa umas das formas mais difundidas da devoção mariana. O Carmelo é uma cadeia montanhosa com mais de 25 km de comprimento, que se estende do golfo de Haifa, no Mediterrâneo, até a planície do Esdrelon. De qualquer maneira, é sobre esse monte, já espiritualmente ligado a Elias na tradição, que na segunda metade do séc. XII começam uma experiência eremítica alguns “devoti Deo peregrini” ocidentais, provavelmente relacionados com as últimas cruzadas do século.

É certo que então o grupo dos “irmãos” já transportados também para o Ocidente, se chamava “Ordem de Santa Maria do Monte Carmelo”. Já na primeira metade do séc. XIII a ordem é mariana, fundada em honra da Virgem, e que os religiosos se professam como particularmente dedicados à mãe de Deus.

Diríamos que os “irmãos do Carmelo” olham para Maria de Nazaré, como “escrava do Senhor”, a inspiradora, guia, senhora da vida, centralizada na guarda contemplativa da palavra. Por isso hão de experimentá-la como mãe e irmã ao mesmo tempo, em atmosfera de intimidade orientada no sentido de viver a plenitude no “serviço de Cristo”, em um clima de simplicidade e austeridade.

Os carmelitas celebravam toda semana a comemoração litúrgica de Maria. É claro que a festa queria reconhecer Maria como autora da “paz” da ordem diante das lutas externas sofridas também por causa do título mariano.  Na sua tipologia primitiva o objetivo, portanto, é muito claro: a celebração do amor da Padroeira.

16 de julho de 1251 como data do dom do escapulário por Nossa Senhora. Trata-se da conhecida “visão”, chegada até nós, através do Catálogo dos santos carmelitas, cujos manuscritos mais antigos são posteriores a 1411, ainda que alguns trechos dos textos possam ser anteriores. Na forma considerada como a mais antiga, o Catálogo diz simplesmente que certo “Simão Stock, de nacionalidade inglesa, nas orações pedia sempre a Virgem um privilégio para a sua ordem. E a Virgem gloriosa apareceu a ele, trazendo nas mãos o escapulário e dizendo-lhe: “Este será o privilégio para ti e para os teus. Quem morrer vestido com ele se salvará”.

O que posteriormente acentuou esse novo caráter foi também a chamada “Bula Sabatina” com João XXII, a 03 de março de 1322, teria relacionado uma sua visão da Virgem, que lhe teria prometido a libertação do purgatório no primeiro sábado depois da morte para os carmelitas e ainda para os “confrades” da ordem que houvessem observado a castidade do seu estado, feito orações e usado o hábito do Carmelo. Esse hábito, que no princípio constava especialmente do manto, pouco depois passou a ser entendido apenas como “escapulário”.

É certo que as duas promessas feitas a São Simão (salvação eterna) e a João XXII (libertação do purgatório no primeiro sábado depois da morte) influíram muito na difusão da devoção a “Nossa Senhora do Carmo” (nome vulgar e mais usual), mediante o pequeno hábito ou escapulário.

Permaneceu também o antigo objetivo da festa, isto é, a manifestação do reconhecimento pelo que Maria é para o Carmelo. O que se quis foi, de modo implícito, aludir ao monte Carmelo e à Virgem da “Subida” e das “noites”, cujo “múnus” próprio na economia da salvação consiste em conduzir à perfeição da caridade, significada pelo monte, que é Cristo. Assim, a “subida do Carmelo” é vista de uma ótica cristológica exata.

Dentro de tal ótica, também o “sinal”, constituído pelo escapulário, tem o significado mais autêntico, para quem o usa, deve sentir-se comprometido com uma especial dedicação à Virgem, com seu culto, com a sua imitação, elementos essenciais da vocação carmelita, da qual na igreja o escapulário torna participante, como escreveu Pio XII a 11 de fevereiro de 1950, deve fazer com que o escapulário se torne “memorial de Nossa Senhora, espelho de humildade e castidade, breviário de modéstia e de simplicidade, eloquente expressão simbólica da oração de invocação do auxílio divino”.

A celebração de Santa Maria do Carmo (forma abreviada de “Carmelo” usada em português) é a festa da ordem e de todos os que de algum modo se acham unidos ao Carmelo no reconhecimento de Maria como fonte de todos os bens em Cristo, trilha e auxílio no caminho árduo da subida para ele, e irmã no viver o ideal da oração contemplativa, característica marcante do Carmelo seguindo as pegadas daquela que “tudo conservava no coração” em atenta reflexão contemplativa (cf. Lc 2,19.51).

Ao mesmo tempo, a festa incute a certeza de fé no auxílio de graças de Maria. O amor particular e a fiel imitação dão a firme esperança de quem aquela que tem o ofício de ser “mãe na ordem da graça… cuida dos irmãos do Filho que ainda peregrinam e se acham em meio a perigos e dificuldades, enquanto não são introduzidos na pátria bem-aventurada” (cf. LG 61.62).

Maria será “sinal de segura esperança e consolação” (LG 68) para aqueles que, através do humilde “sinal” da dedicação particular, procuram refletir a sua presença no mundo, tanto em meio as provocações da vida, quanto nas dores do último combate. Maria será também sinal de esperança no lugar da “purificação” que prepara o encontro eterno com o Amor, enquanto os que morreram “não forem introduzidos” no céu.

Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós!

Fonte: Fiores, Stefano / Meo, Salvatore. Dicionário de Mariologia, verbete: Carmelo, Valentino Macca, prof. de Espiritualidade Mariana, na pontifícia faculdade teológica Teresianum. Ed. Paulus, São Paulo-SP, 1995.