A VIRGEM DA ESCUTA

A Escritura nos ajuda a compreender o alcance do fiat de Maria. No advento, a Virgem se destaca como figura simbólica do povo de Deus em prece, à escuta, na oferta.

A escuta da palavra de Deus tem a primazia, sendo também princípio e fundamento da vida espiritual e da santidade. Maria escuta em plenitude, acolhendo e meditando dentro de si, para dar frutos. Essa palavra, que requer fé, disponibilidade, humildade e presteza, é aceita como devem ser acolhidas as coisas de Deus. A ela se aplica a sentença de Jesus: “Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a observam” (Lc 11,27). Será que assim, o fazemos?

Desse modo, o Verbo não desceu do céu como homem já feito, com corpo adulto plasmado diretamente por Deus, como Adão (cf. Gn 2,7), mas vem a este mundo “nascido de mulher” (Gl 4,4), para salvá-lo de dentro. Os evangelhos das genealogias de Jesus, lidos nesse tempo e cujo último elo é Maria, nos recordam o mistério da assunção do humano e da imersão no humano por Deus. Proposta de Deus e nossa resposta.

Como vimos, a maternidade de Maria não é só, nem principalmente processo biológico. Antes de mais nada, ela é fruto de adesão à palavra de Deus. Segundo o projeto divino, é em virtude do consentimento em relação à proposta do anjo que ela acolhe Cristo e o dá ao mundo. Sem fazer do v. 38 (“Eu sou a serva do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra!”) o vértice da anunciação, Lucas quis ressaltar a excepcional qualidade do ato de fé de Maria. Esse consentimento significa ou obediência de fé: como diz santo Agostinho, “cheia de fé”, Maria “concebeu a carne de Cristo através da fé” (Sermo 215,4; PL 38,1074; Contra Faustum, 24,4; PL 42,490). Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé!

Maria é a mulher que, com humildade e plena decisão, diante da palavra decisiva de Deus, sabe realizar a sua escolha, tomando nas mãos, além do seu destino, também o destino do mundo. Ela acreditou. Antes de mais nada, a fé é conversão, isto é, penetrar no horizonte de Deus e de suas obras. Sem a conversão, não é possível o cumprimento do plano de Deus na história. A é obscuridade, mistério e, ao mesmo tempo, esperança teologal: ela pode envolver hesitação e dúvida, tentação e luta, mas é espera que já entreveja a segurança do resultado. Saibamos escutar o chamado de Deus em nossas vidas!

Referência bibliográfica: Dicionário de Mariologia, verbete: Advento, Stefano Rosso,sdb. Paulus,1995