BATISMO: Jesus “desce” às águas da humanidade

“…ao sair da água, viu o céu se abrindo, e o Espírito descer sobre ele”

Mc 1,10

Com a Epifania, encerra-se o tempo do Natal. De um salto a liturgia nos leva até o Jesus adulto, passando dos magos sábios que buscam o menino-Deus nascido em Belém ao Jesus renascido nas águas do Jordão, para iniciar sua missão messiânica que culminará na Páscoa.

O relato do batismo de Jesus nos situa diante de um fato histórico, mas os evangelhos não se restringem a narrar simplesmente um rito externo, e sim a experiência fundante de sua vida: sentir-se Filho amado do Pai. Por isso, cada evangelista acentua os aspectos que considera mais importantes para destacar a identidade e a missão de Jesus. A narração junto ao Jordão busca concentrar em um só momento o processo que durou toda a vida de Jesus.

  • O batismo de Jesus revela uma profunda experiência espiritual, muito ligada à sua atitude humilde de aproximar-se do rio Jordão, onde as pessoas simples do povo buscavam, no batismo de João, uma purificação de suas vidas.
  • Jesus desce ao Jordão, gesto que condensa sua descida do céu à terra, sua “kénosis”, a radicalização de sua Encarnação. É uma descida às águas da humanidade. Nesse sentido, o batismo é a prova de da verdadeira humanidade de Jesus

Ao descer às margens do Jordão, Jesus rompeu com a “normalidade” de sua vida cotidiana, deslocou-se para as margens da humanidade, rompeu fronteiras, abriu os olhos a uma realidade mais instigante e desafiadora. Ao mesmo tempo, no Batismo, Jesus se compreendeu a si mesmo, compreendeu sua missão, compreendeu sua relação com o Pai e com os homens. E compreendeu até o sentido de sua própria morte. Sua vida começou a ter um novo sentido”. Porque também Jesus precisou descobrir o “porquê e o “para quê” de sua vida, a partir de sua condição humana.

  • Jesus, ao saber-se e sentir-se amado infinitamente por um Pai que o chama de “Filho amado”, descobre em si o eixo de seu equilíbrio vital. O amor que experimenta na experiência de seu Batismo se transforma em chamado vocacional, em investidura para uma missão universal e libertadora.

Todos estamos de acordo que a primeira experiência humanizadora é a do amor: amar e de sentir-se amado. Isso nos dá segurança e equilíbrio interno como pessoas.

Aqui está a experiência vital de Jesus, onde alcança o equilíbrio entre aquilo que pensa e sente com aquilo que recebe e acolhe em seu interior: “Filho amado, complacência do Pai”.

  • Sua experiência interior, no batismo, é tão potente que transforma para sempre o modo de entender e viver sua relação com o Pai. Jesus acolhe a filiação que lhe é revelada através da voz amorosa do Pai e, também de igual maneira, acolhe o Espírito que lhe dá a força para a missão, a grande tarefa do Reino: equilíbrio entre diálogo com Deus e compromisso em favor da vida (isso será confirmado pela sua experiência de discernimento no deserto).

A festa do batismo de Jesus, portanto, é uma ocasião especial para retomar nosso batismo, um convite permanente a relançar-nos em Sua aventura, a deixar-nos invadir pelo Seu Espírito, a comprometer-nos com Seu Reino. Na vivência cristã, nosso maior risco é o esquecimento de Jesus e o descuido de seu Espírito. É preciso voltar às fontes, à raiz, recuperar o Evangelho em toda sua pureza e verdade, deixar-nos batizar pelo Espírito de Jesus. Se não nos deixamos reavivar e recriar por esse Espírito, nós cristãos não teremos nada importante a contribuir com a sociedade atual, tão vazia de interioridade, tão incapaz para o amor solidário e tão carente de esperança.

  • A pergunta para nós, seguidores(as) de Jesus, poderia ser esta: acolhemos o dinamismo despertado pelo batismo e que se expressa como capacidade de encontro com Deus e com Seu amor, para ir criando equilíbrio nos ambientes por onde transitamos ou nos fazemos presentes?

Para isso, é preciso submergir-nos continuamente nas águas do nosso “Jordão” interno; a água nos acompanha e nos convida a entrar, a soltar, a escutar. De um lado, o rio, o movimento das águas, que recorda a do Jordão do qual todos procedemos, porque ali surgiu um projeto que evolui em nós.

Do outro, a fila das pessoas, com suas vidas, suas dores e amores, suas paixões e rotinas…, com suas infinitas possibilidades ainda latentes, ou estancadas em seus medos paralisantes.

  • Nascemos do cosmos, da água… Sem água pura, sem vento, sem terra e sem fogo, sem estrelas do céu, não podemos nascer… Da terra com água brotamos; sem batismo de água (de mundo) não somos humanos.
  • Não nos batizamos se não deixamos que Deus nos mergulhe nas águas de Sua Vida, de tal maneira que n’Ela vivemos, crescemos, nos movemos e somos, como Jesus.
  • Não há batismo se esse renascer em e por Deus (como Jesus), pelo Espírito, não nos coloca, como “Ele”, a serviço da Vida, que é a saúde e salvação de todos, a fraternidade na justiça, em gesto de amor ativo, de compromisso pela liberdade, de entrega pela chegada do Reino…

Texto bíblico:  Mc 1,7-11

Oração:

  • Ao “descer” junto às margens do nosso Jordão, podemos atingir experiências imprevistas e surpreendentes, ou reconhecer, através do murmúrio das águas, “vozes novas” que nos incitam a peregrinar para as regiões desconhecidas do nosso próprio interior.Só assim, poderemos vislumbrar o outro lado e tocar as raízes mais profundas que dão sentido e consistência ao nosso viver.
  • Recordar (lembrar com o coração) dimensões da vida que precisam ser ampliadas a partir da vivência do batismo. Recordar medos, entraves, obstáculos… que limitam sua vivência batismal.
Padre Adroaldo Palaoro,SJ – Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana – CEI