Fraternidade e amizade social

Fratelli Tutti conjuga, ao mesmo tempo, a fraternidade e a amizade social. Esse é o núcleo central do texto e do seu significado. O realismo que atravessa as páginas dilui todo romantismo vazio, sempre à espreita quando se trata de fraternidade. A fraternidade não é apenas uma emoção, ou um sentimento, ou uma ideia – por mais nobre que seja – para Francisco, mas sim um fato que, depois, implica também a saída, a ação (e a liberdade): “De quem eu me faço irmão?”.

fraternidade assim entendida inverte a lógica do apocalipse hoje predominante; uma lógica que luta contra o mundo porque crê que ele é o oposto de Deus, ou seja, um ídolo, e portanto deve ser destruído o mais rápido possível para acelerar o fim do tempo. Diante do abismo do apocalipse, não há mais irmãos: apenas apóstatas ou “mártires” em uma corrida “contra” o tempo. Não somos militantes ou apóstatas, mas irmãos todos.

A fraternidade não queima o tempo, nem cega os olhos e os ânimos. Em vez disso, ocupa o tempo, requer tempo. O do litígio e o da reconciliação. A fraternidade “perde” tempo. O apocalipse o queima. A fraternidade requer o tempo do tédio. O ódio é pura excitação. A fraternidade é aquilo que permite que os iguais sejam pessoas diferentes. O ódio elimina o diferente. A fraternidade salva o tempo da política, da mediação, do encontro, da construção da sociedade civil, do cuidado. O fundamentalismo o anula em um videogame.

É por isso que, no dia 4 de fevereiro de 2019, em Abu DhabiFrancisco, o papa, e Aḥmad al-Tayyeb, o grão-imã de al- Azhar, assinaram um histórico documento sobre a fraternidade. Os dois líderes se reconheceram como irmãos e, juntos, tentaram olhar para o mundo de hoje. E o que entenderam? Que a única verdadeira alternativa que desafia e detém a solução apocalíptica é a fraternidade.

É preciso redescobrir essa poderosa palavra evangélica, retomada no lema da Revolução Francesa, mas que a ordem pós-revolucionária abandonou depois, até o seu apagamento do léxico político-econômico. E nós o substituímos por aquela mais fraca da “solidariedade”, que, na Fratelli tutti, se repete 22 vezes (contra 44 de “fraternidade”).

Francisco escreveu em uma das suas mensagens: “Enquanto a solidariedade é o princípio de planejamento social que permite que os desiguais se tornem iguais, a fraternidade é aquilo que permite que os iguais sejam pessoas diferentes” [Papa Francisco, Mensagem à Prof.ª Margaret Archer, presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, 24 de abril de 2017.].

O reconhecimento da fraternidade muda a perspectiva, a inverte e se torna uma forte mensagem de valor político: todos somos irmãos e, portanto, todos somos cidadãos com direitos e deveres iguais, sob cuja sombra todos gozam da justiça.

A fraternidade, além disso, é a base sólida para viver a “amizade social”. O Papa Francisco em 2015, falando em Havana, lembrou que uma vez havia visitado uma área muito pobre de Buenos Aires. O pároco do bairro apresentou-o a um grupo de jovens que estavam construindo algumas casas: “Este é o arquiteto, é judeu; este é comunista; este é católico praticante; este é…”. O papa comentou: “Eram todos diferentes, mas todos estavam trabalhando juntos pelo bem comum”. Francisco chama essa atitude de “amizade social”, que sabe conjugar os direitos com a responsabilidade pelo bem comum, as diversidades com o reconhecimento de uma fraternidade radical.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/603448-fratelli-tutti-um-guia-para-a-leitura-da-enciclica-do-papa-francisco-artigo-de-antonio-spadaro, acesso em 07/10/2021.