O cisma entre indivíduo e comunidade

O primeiro passo que Francisco dá é o de compilar uma fenomenologia das tendências do mundo atual que são desfavoráveis ao desenvolvimento da fraternidade universal. O ponto de partida das análises de Bergoglio é frequentemente – senão sempre – aquele que ele aprendeu com os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, que convidava a rezar imaginando como Deus vê o mundo [Cf. Inácio de Loyola s., Exercícios espirituais, nn. 103-106.].

O pontífice observa o mundo e tem a impressão geral de que está se desenvolvendo um verdadeiro cisma entre o indivíduo e a comunidade humana (cf. n. 30). Um mundo que não aprendeu nada com as tragédias do século XX, sem senso da história (cf. n. 13). Parece haver um retrocesso: os conflitos, os nacionalismos, o senso social perdido (cfr. n. 11), e o bem comum parece ser o menos comum dos bens.

Nesse mundo globalizado, estamos sozinhos, e prevalece o indivíduo sobre a dimensão comunitária da existência (cf. n. 12). As pessoas desempenham o papel de consumidores ou de espectadores, e os mais fortes são favorecidos.

E assim Francisco monta as peças do quebra-cabeça que ilustra os dramas do nosso tempo.

A primeira peça diz respeito à política. Nesse contexto dramático, as grandes palavras como democracialiberdadejustiçaunidade perdem a plenitude do seu significado, e se tornam liquefeitas a consciência histórica, o pensamento crítico, a luta pela justiça e os caminhos da integração (cf. n. 14 e 110). E é duríssimo o julgamento sobre a política pelo modo como às vezes ela está reduzida hoje: “A política deixou de ser um debate saudável sobre projetos a longo prazo para o desenvolvimento de todos e o bem comum, limitando-se a receitas efêmeras de marketing cujo recurso mais eficaz está na destruição do outro” (n. 15).

A segunda peça é a cultura do descarte. A política reduzida a marketing favorece o fosso global e da cultura do qual é fruto (cf. n. 19-20).

O quadro continua com a inserção de uma reflexão sobre os direitos humanos, cujo respeito é um pré-requisito para o desenvolvimento social e econômico de um país (cf. n. 22).

A quarta peça é o importante parágrafo dedicado às migrações. Se deve ser reafirmado o direito a não emigrar, também é verdade que uma mentalidade xenófoba esquece que os migrantes devem ser protagonistas do seu próprio resgate. E com força afirma: “É inaceitável que os cristãos partilhem esta mentalidade e estas atitudes” (n. 39).

Depois, há a quinta peça: os riscos que a própria comunicação hoje levanta. Com a conexão digital, as distâncias se encurtam, mas se desenvolvem atitudes de fechamento e de intolerância, que alimentam o “espetáculo” encenado pelos movimentos de ódio. Em vez disso, precisamos de “gestos físicos, expressões do rosto, silêncios, linguagem corpórea e até o perfume, o tremor das mãos, o rubor, a transpiração, porque tudo isso fala e faz parte da comunicação humana” (n. 43).

O pontífice, no entanto, não se limita a fornecer uma descrição asséptica da realidade e do drama do nosso tempo. A sua leitura está imersa em um espírito de participação e de fé. A visão do papa, embora atenta à dimensão sócio-política e cultural, é radicalmente teológica. A redução ao individualismo que aqui emerge é fruto do pecado.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/603448-fratelli-tutti-um-guia-para-a-leitura-da-enciclica-do-papa-francisco-artigo-de-antonio-spadaro, acesso em 07/10/2021.