O pobre paralítico

Terça-feira da quarta semana da quaresma

“Jesus viu o paralítico ali deitado…”

(Jo 5,1-16)
  • Mobilize-se inteiramente (corpo, mente, afetividade, coração) para este momento de intimidade com o Senhor.
  • Pacifique-se e silencie-se, por uns instantes, para sentir a presença envolvente de Deus, dentro de você e à sua volta.
  • Faça a oblação de tudo o que vai acontecer na oração: “que todas as minhas ações, intenções, pensamentos, sentimentos… sejam puramente ordenados ao serviço e louvor de Deus nosso Senhor”.
  • Peça a graça: “Que o Senhor nos dê ouvidos de discípulos(as), para deixar ressoar, em nosso interior, o novo ensinamento proclamado por Jesus”.
  • Para facilitar a contemplação da cena evangélica, leia as indicações abaixo:

O episódio evangélico deste dia está perpassado pelo tema da vida e da morte.

Nele se fala de doenças e de doentes: uma multidão de enfermos está postada na piscina de Betesda nutrindo no coração a esperança de recobrar a vida.

Nesse contexto, Jesus é presença de vida que passa quase despercebida. Ele transita no meio da multidão abatida pela doença e pela morte. A vida jorrará não da água da piscina, e sim da força de sua palavra eficaz. Sua pessoa será a fonte de vida.

O pobre paralítico, impossibilitado de mover-se depressa, foi quem experimentou a ação vivificante dessa nova fonte, Jesus. E recobrou, para além da vida física, sua vida social e religiosa. Superada a marginalização em que se encontrava, abriu-se para ele uma nova perspectiva de vida. Jesus se concentra no paralítico, como se estivessem ambos a sós. Ele o olha, fala-lhe, questiona-o, dá-lhe tempo, acolhe sua resposta; esforça-se em esperar que algo neste homem se coloque em movimento.

Jesus, faz com que o enfermo viva uma primeira e fundamental cura. Revela-lhe que ele tem valor, que é uma pessoa, que é importante para alguém; esse homem é digno de interesse, amado de maneira única, como cada filho(a) de Deus.

Jesus tem uma visão profunda do ser humano, vê seu interior e consegue reconhecê-lo em toda sua profundidade. Esse conhecimento mais profundo leva o Mestre a perguntar ao doente: “Você que ficar curado?”. Jesus reconhece que ele está sendo levado pela vida sem vontade própria. Assim o desafia a entrar em contato com sua vontade própria.

Por meio dessa única pergunta, Jesus revela ao paralítico a causa de sua doença: ter deixado extinguir-se seu impulso vital, seu desejo de vida, ele já não sabe querer.

A interpelação lançada por Jesus é direta. Exige, portanto, uma resposta precisa: sim ou não. Ninguém pode responder no lugar desse homem; só ele sabe em que posição está. Contudo, o homem fala dos outros, não do que vive, não do que deseja ou sente: “não tenho ninguém para me lançar na piscina, para me carregar”.

O enfermo responde evasivamente, mas esforça-se para responder e começa a comunicar-se. E isso basta.

Uma gota de vida começa a rolar, o processo de cura se pôs em curso, pois esse homem

fez um gesto, um pequenino gesto, o único que provavelmente podia fazer. Porém, agora o enfermo está em relação com Aquele que procura despertá-lo: à sua maneira, abriu a porta.

O fascinante nesse relato é o método terapêutico transparente de Jesus. O Mestre confronta o doente com sua própria força, não permite que ele fique se lamentando; simplesmente lhe ordena que se levante, destruindo assim sua ilusão de que os outros seriam os culpados pela sua doença: “levanta-te, toma o teu leito e anda”.

O doente não deve esperar até que os outros o carreguem. Antes, deve levantar-se por conta própria – em meio à sua fraqueza, à sua paralisia.

Ele não deve permitir que seu leito o imobilize por mais tempo; deve levar esse símbolo da sua doença e lidar de forma diferente com seus bloqueios. Deve levantar-se com suas fraquezas, paralisações e inseguranças, reconciliar-se com seus bloqueios, tomá-los e carregá-los. Só assim eles deixarão de impedir que viva e seja capaz de seguir seu próprio caminho.

  • Com a imaginação, acompanhe Jesus no mundo da exclusão e da dor: olhe, escute, observe a multidão de doentes, deixando-se impactar pelo ambiente.
  • Aproxime-se, junto com Jesus, do paralítico, para deixar-se afetar pela situação dele; escute o diálogo de Jesus com o doente e observe a reação dele diante da ordem de Jesus para se levantar.
  • Converse com Jesus sobre suas paralisias, sobretudo as psicológicas, espirituais, relacionais… Deixe ressoar em seu coração a pergunta de Jesus: “Queres ficar curado?”
  • Deixe que no fundo do seu coração brote uma exclamação de admiração e de gratidão por poder viver intensamente esse momento de oração.
  • Registre no seu “caderno de vida” as “moções” (movimentos do coração: alegria, paz, luz… ou resistência, medo aridez, confusão…).
Fonte: Retiro Quaresmal 2022, pág. 71-73. Edições Loyola, São Paulo,SP. 2022.