O trabalho…

Quarta-feira da quarta semana da quaresma

“Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho”

(Jo 5,17-30)
  • Silencie e tome consciência do seu verdadeiro estado de espírito neste momento. É seu “eu verdadeiro” que quer se deixar iluminar pelo Espírito Santificador.
  • Disponibilize todo o seu ser diante do Senhor: posição corporal, silêncio interior, quietude mental, serenidade afetiva…
  • Diante do Deus Fonte de tudo, suplique a graça: “Que o Senhor nos dê ouvidos de discípulos(as), para deixar ressoar, em nosso interior, o novo ensinamento proclamado por Jesus”.
  • Acolha as “considerações” abaixo como inspiração para a sua oração.

Jesus, o grande Mestre da galileia, aproveita todas as circunstâncias da vida para nos educar, para que possamos descobrir ou encontrar, na vida cotidiana, pequenos tesouros que enriquecem nossas vidas. E o trabalho é uma das dimensões da vida que mais precisa ser humanizada e evangelizada.

Precisamos descer de nossa máquina existencial de corrida, para que nosso trabalho se converta em sinal de bênção que faz crescer a beleza e o sentido das coisas; e a festa da vida não terá fim.

Precisamos alimentar uma outra relação com o trabalho, para assumi-lo como cooperação com Deus trabalhador e com tantas pessoas tocadas pela graça. Uma relação que permita que nos distanciemos das cargas, ativismos, tarefas estressantes… e vivamos o trabalho com humor e criatividade.

Uma relação que nos ajude a desfrutar do trabalho, apesar de sua intensidade.

Poderíamos assumir um tipo de trabalho mais semelhante ao do artista, que se esmera em sua peça musical, literária ou pictórica, mas que se enriquece e se expande na sua obra.

Por meio do trabalho, podermos conhecer nossa própria interioridade projetada na obra e, ao mesmo tempo, a obra realizada torna-se o espelho que nos reflete, poderemos contemplar a nós mesmos no trabalho realizado e, com júbilo, exclamar como o Criador: “E viu que era bom”.

Há outros elementos que contribuem para fazer de nosso trabalho uma “experiência espiritual”: a pureza de motivações (por que faço isso? Para quem faço?), a capacidade de “contemplar”, a agilidade no “eleger”, crescer na gratuidade, o deixar-se ajudar, a capacidade de agradecer.

A atitude de gratidão (consciência viva daquilo que cada dia recebemos e nos é dado) nos faz viver nosso trabalho como serviço e o liberta radicalmente de suas dimensões de rotina, de carga, e o vai situando na linha de uma experiência profundamente “espiritual”: a dupla experiência de agradecer e ajudar.

Quando vivemos nosso trabalho com gratidão, o esforço que ele exige brota de um modo mais natural, mais espontâneo; por isso, “cansa” menos, “desgasta” menos.

Se vivemos a partir da gratidão, ficamos menos “dependentes” da compensação que os outros poderiam dar à nossa entrega ou ao nosso serviço.

Fazendo a experiência do “Deus trabalhador”, descobrimos o valor de nossa ação e de nossas potencialidades na criação, colaboração e transformação do mundo; por meio do trabalho nos fazemos pessoas dignificadas e divinizadas.

No trabalho vamos dando sentido às nossas vidas, vamos abrindo espaços de humanização, vamos construindo o futuro. Deus nos chama a valorizar e dar sentido ao trabalho, superando a dinâmica da ganância e da produção; no fundo do coração humano continua brilhando um desejo de encarnar o ideal revelado no livro do Gênesis, ou seja, o ideal de chegar a ser em plenitude, “a imagem e semelhança” do Deus que cria amando e ama criando; um Deus que trabalha e que se compraz do que faz; um Deus que também descansa, estabelecendo assim ritmos e alternâncias que Lhe permitem contemplar a obra de suas mãos. O Deus da Bíblia trabalha com prazer e admira a beleza e a bondade de sua criação.

Ao situarmos nosso trabalho cotidiano na linha da colaboração com a atividade criadora de Deus, do serviço aos homens, da construção de um mundo fraterno, deixamos de nos converter em um mecanismo ou dinâmica de auto centramento, de busca exclusiva e muitas vezes compulsiva de nós mesmos e de nossos interesses e benefícios, e evitamos, em nosso modo de trabalhar, atitudes e ações de domínio, de manipulação, de maus-tratos aos outros…

  • Agora leia pausadamente, saboreando as palavras de Jesus, conforme o Evangelho deste dia.
  • Busque, na oração, cavar mais profundamente, até atingir as raízes de seu próprio ser; o núcleo original de sua personalidade. É no mais íntimo que cada um reza ao Senhor. É no mais profundo da interioridade que se escuta o Senhor. Deixe-se invadir pela luz e pela vida d’Aquele que “armou sua tenda entre nós”.
  • Converse com o Senhor sobre os pensamentos e sentimentos que vão brotando na oração.
  • Finalize a oração numa atitude de gratidão e, depois, registre os apelos, luzes, moções da oração.
Fonte: Retiro Quaresmal 2022, pág. 73-75. Edições Loyola, São Paulo,SP. 2022.