MARIA NO CONCÍLIO VATICANO II

Introdução

No próximo dia 11/out/2022, completaremos 60 anos da abertura do Concílio Vaticano II. Decorrido este tempo, podemos perguntar: O que o Concílio nos ensinou sobre Maria, a Mãe de Jesus?

No período pós-conciliar, houve muita agitação, afetando a devoção a Maria, que parece ter entrado em crise. Mas, será que o Concílio foi responsável por este aparente esfriamento da devoção mariana em alguns ambientes da Igreja Católica.

Será útil o confronto das tendências atuais da devoção e da teologia sobre Maria diante da doutrina oficial da Igreja tratada no último Concílio e nos documentos posteriores dos últimos papas.

No atual pluralismo eclesial a reflexão teológica e a prática pastoral das comunidades e movimentos parecem estar polarizadas diante de duas concepções mariológicas: “mariologia minimalista” e “mariologia maximalista”.

Podemos verificar que na reflexão teológica, com viés de “Libertação” e “Feminista”, há predomínio da tendência “minimalista”, pois o interesse dessas reflexões são a figura histórica de Maria de Nazaré, mulher simples, pobre, solidária com os pobres, semelhante a tantas mulheres anônimas do povo cristão. O contrário, se dá na prática devocional de diversos grupos católicos, com ênfase a “mariologia maximalista”, que destaca os privilégios de Maria e valoriza as aparições marianas e as supostas mensagens recebidas por videntes.

Maria no Concílio Vaticano II

No Concílio Vaticano II, Maria foi acolhida no capítulo VIII da Constituição Dogmática Lumen Gentium, sobre a Igreja. Tal inclusão acontecerá a partir de discussões apaixonadas.

A Comissão teológica preparatória havia apresentado um esquema independente “Sobre a bem-aventurada Virgem Maria”, mas tal texto nem chegou a ser submetido à discussão pública na primeira sessão conciliar (1962). Mas, no intervalo entre a primeira e a segunda sessão, houve diversas emendas e discussões, que acabou inserindo o tema no esquema sobre a Igreja.

Então na segunda sessão (1963), o projeto apresentado sobre a Igreja foi criticado e acabou sendo rejeitado, devido a uma visão excessivamente jurídica e estática, ou seja, sem progressos ou avanços. Daí, como encaixar a presença de Maria neste contexto. Mas, a partir de um novo enfoque para Igreja, em perspectiva espiritual e escatológica, há espaço para inclusão do tema mariano. Pois, o Concílio queria evitar Maria, a Mãe de Jesus, como uma figura solta e isolada na Criação.

Então, no dia 29/out/1963, há votação pelos padres conciliares do seguinte tema: “Aceitais adaptar o esquema sobre A Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, de maneira a se tornar o último capítulo do esquema De Ecclesia? Foi um momento dramático, face as duas concepções de mariologia, irredutíveis. Uma mariologia tendia aos privilégios de Maria, conforme já descritos em Encíclicas de Papas anteriores. A outra tendência, busca um tratamento positivo do tema, baseado nas fontes bíblicas, patrísticas e litúrgicas, e evitando-se polêmicas com o protestantismo.

A votação provoca intensa disputa a favor ou contra a proposta. Folhetos contrários à inclusão foram distribuídos onde se reunia a assembleia conciliar, na basílica de São Pedro. O resultado foi favorável por pequena margem, causando grande tristeza em grupos contrários.

O placet (em favor da inserção) de Maria na Lumen Gentium obteve 1.114 votos; o non placet (contra a inserção) 1.075 votos; cinco votos foram nulos. Os Padres conciliares estavam divididos. Que Maria fosse a causa de tal divisão, provocou lágrimas de alguns.

Os argumentos contrários a inserção de Maria na Constituição, gera forte apelo emocional. Acusavam, aqueles que foram a favor de “minimalistas”, alegando que estavam diminuindo a grandeza de Maria e seu papel na História da Salvação, pois, quanto mais se reduzisse os privilégios e atributos de Maria, tanto mais se diminuiria a devoção mariana.

Não obstante, o que pretendia a tese majoritária não era minimizar a figura de Maria, mas inseri-la de forma harmoniosa na fé cristã, pois “a honra de Maria não estava em jogo” (Cardeal Grégoire-Pierre XV Agagianian, libanês †1971 – Prefeito-emérito da Congregação para a Evangelização dos Povos).

O Papa Paulo VI (†1978) tentou aproximar as duas posições, manifestando-se favorável à integração de Maria na Constituição sobre a Igreja. Mas, exaltando a superioridade da Virgem sobre a Igreja, atribui a Maria o título de “Mãe da Igreja”.

Chegamos a terceira sessão do Concílio (1964) tudo já em paz, mas havia uma minoria “conservadora” que invocava a doutrina das Encíclicas pontifícias. Vários padres pedem a renovação da consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, feita por Pio XII (†1958), em 1942. E, a maioria, quer o retorno as fontes mais antigas, valendo-se do essencial do culto mariano, evitando assim, a dar espaços ou mal-entendidos junto aos protestantes.

Também, houve debates quanto aos “títulos” marianos, como o de “Medianeira”. Alguns, pediam que o Concílio atribuísse este título a Maria. Sabemos que Cristo é o único Mediador (1Tm 2,5), no sentido de produzir a graça, mas, alegam que Maria e a Igreja exercem uma mediação participada e subordinada à mediação de Cristo no sentido de comunicar a graça da redenção, que Ele nos mereceu. Cristo associa Maria e a Igreja à sua obra de redenção. Uma interpretação muito estreita da expressão “único Mediador” excluiria, não só a mediação de Maria, como também a da Igreja. Mas, no texto final do Documento, o título de “Medianeira” aparecerá em um contexto muito discreto, junto com outros títulos, já tradicionais: Advogada, Auxiliadora, Socorro e Medianeira.

Então, após a divisão da assembleia conciliar, por ocasião da primeira votação sobre o tema mariano, houve a votação final, no dia 18/nov/1964, com paz honrosa a todos.

Mas, a pedido de muitos Padres conciliares, o Papa Paulo VI, ao final da 3ª sessão conciliar, proclamou de modo preciso Maria como “Mãe da Igreja”, com emoções de uns e frieza de outros.

Fonte: Luiz Gonzalez-Quevedo,SJ. Maria e a Igreja no Concílio Vaticano II; ITAICI – Revista de Espiritualidade Inaciana – 88 (junho/2012).