Uma oração revolucionária

“Quando rezardes, dizei: ‘Abba’”

(Lc 11,2)

Os evangelhos nos revelam que Jesus, em muitas ocasiões, se afastava de seus discípulos, do povo, dos espaços habituais, das atividades missionárias… para orar, sem deixar-se prender pelas necessidades urgentes, pelas expectativas de seus amigos e pelas ameaças de seus inimigos. Essa distância, que o fazia entrar em intimidade com o Pai, ia gerando nele uma nova sensibilidade para perceber os acontecimentos e a ação do Pai no centro da realidade e assim poder anunciar a surpreendente notícia do Reino.

  • Sabemos que Jesus vivia uma profunda sintonia com o Pai; e esta sintonia se manifestava no seu modo de orar: Ele orava nos momentos difíceis; dava graças ao Pai e o louvava por ter revelado os mistérios do Reino aos pequenos; orava solicitando o perdão na Cruz para aqueles que o crucificavam; rezava nos momentos decisivos da missão: batismo, pregação, eleição dos discípulos, transfiguração…
  • Sua oração contagiava, despertava interesse nos outros até o ponto de seus amigos lhe pedirem que lhes ensinassem a orar, porque viam que Ele tinha outra profundidade e superava os formalismos e as orações recitadas de memória.
  • O que é mais original e revolucionário em Jesus é a atitude de dirigir-se abertamente ao Pai com palavras simples e emotivas, na linguagem de todos os dias. Na sua oração, Jesus revela um Deus Pai-Mãe, cheio de ternura e compaixão, que toma iniciativa e rompe as distâncias, entrando em comunhão com seus filhos e filhas. Por isso, a primeira palavra da oração de Jesus expressa um grito que ecoa além dos limites do espaço e do tempo. Jesus não disse “Deus nosso que estais no céu”, ou “Criador nosso”, ou “Todo-poderoso nosso”. É significativo que tenha dito “Abba”.

Uma característica comum na construção da “imagem” de Deus em todas as religiões é que Ele é intocável, incompreensível, todo-poderoso, transcendente… A oração de Jesus deixa transparecer não o Deus todo-poderoso, onipotente e onipresente, mas o Deus desejoso de interagir com seus filhos e construir uma rede de relações.

A oração de Jesus mostra um Deus que possui uma enorme sede de relacionamentos; Ele é um Pai que deseja entrar em diálogo com todos. É significativo que Jesus comece a falar de um Pai que quer se aproximar de todos, sem barreiras e preconceitos.

Fixando-nos em Jesus, os nossos olhos e o nosso coração aprendem, na graça do Espírito Santo, o caminho para o Pai. No nosso interior devemos sentir que rezamos continuamente.

  • Na oração de Jesus, nenhum ser humano foi excluído, nenhum errante foi rejeitado, nenhum sacrifício foi pedido, nenhum dogma proclamado, nenhuma lei estabelecida… Sua oração é instigante e provocativa, que nos liberta do cárcere da rotina, resgata-nos do entorpecimento e nos dá um choque de lucidez: a consciência de que somos conduzidos por uma presença amorosa.
  • Não se pode rezar de qualquer jeito e com qualquer disposição a oração que o Senhor nos ensinou.

Para Jesus de Nazaré, Deus não quer que os seres humanos tremam em Sua presença, mas que tenham intimidade com Ele; não quer demonstrar poder que desperta medo, mas sensibilidade que alimenta proximidade; não quer controlá-los, mas fomentar sua liberdade.

Segundo Jesus, o Deus que se esconde atrás da cortina do tempo e do espaço não é um Deus juiz a ser temido, mas um Pai sensível, providente, cuidadoso, que quebra distâncias e se aproxima de todos.

  • Aproximando-nos da oração de Jesus, percebemos que tudo se concentra em torno à expressão vocativa que abre a oração: “Abba!”. É sempre em torno da descoberta do Pai que nos situamos. Mais do que rogar por esta ou por aquela necessidade ou interceder pela satisfação de qualquer carência, o que se pede a Deus é que Ele seja “Pai”. Segundo o Cardeal José Tolentino, “Pai!” é um grito íntimo e aberto de fé, de alegria, esperança e amor; um canto de reconhecimento pelo fato de sermos verdadeiros(as) filhos(as) de Deus. Mas é também uma súplica, um gemido, que brota do nosso ser mais profundo, reconhecendo a nossa distância, a nossa pequenez, a nossa fragilidade…

Através de sua oração, Jesus comunica aos seus discípulos e a todos nós o direito de também dizer “Abba”. Ele ativa em todos nós a participação na sua condição de Filho e, porque somos seus discípulos(as), abre a oportunidade de nos dirigir ao Pai celeste com a confiança de uma criança.

  • Aqui, o nosso desejo se orienta fraternalmente em direção ao próprio desejo de Jesus.
  • Temos a mesma Origem, a mesma Fonte que Jesus: “Eu e o Pai somos um” (Jo. 10,30); esta é uma frase que nós também podemos repetir.
  • Porque, neste momento, a vida que respira em nossos pulmões, que pulsa em nossos corações, não está separada da Fonte da Vida. É preciso, pois, tomar consciência desta relação com a Fonte do Ser que Jesus chama “Abba”, que é seu Pai e nosso Pai, é sua Origem e nossa origem, e também origem do mundo.
  • O coração do ser humano é este lugar onde o universo inteiro clama: “Abba, Pai-Mãe”.
  • Um monge do Monte Athos dizia: “Quando eu digo “Abba”, o mundo inteiro está presente”.

A oração revolucionária de Jesus, portanto, nos descentra e nos move em duas direções: na primeira, nosso olhar e nosso coração se dirigem ao Pai (santificação do seu Nome, vinda do seu Reino). Na segunda, movidos por uma atitude filial, nos dirigimos às nossas necessidades (o pão, o perdão, a força contra a tentação). Estas duas dimensões não devem jamais ser separadas, porque o Senhor as uniu em sua oração.

Invocar Deus como “Abba” nos irmana a todos, reforça nossos vínculos e nos expande a viver a comunhão com todos. Por isso, a invocação do “pão de cada dia” é um ato de e de abandono ao Pai celeste, o qual “bem sabe que precisais de tudo isto” e nos alimenta (Mt. 6,28-32).

  • É necessário pedir o pão, reconhecendo a nossa dependência para com a divina Providência.
  • O fato de que Deus cuida de cada um de nós não é motivo para não estendermos a mão a Ele.
  • Devemos fazê-lo, precisamente, para reconhecer a sua solicitude.
  • O cristão pede o “pão” para si e para os outros; ele não se sente como filho único de Deus, mas sim como membro de uma comunidade de irmãos.
  • “Dá-nos o pão nosso” significa também: “concede que saboreemos juntos o teu dom”.

Comer nunca significa um mero ato biológico de ingerir alimentos; é sempre um ato comunitário e um rito de comunhão.À mesa eucarística, onde se parte o pão do Senhor, o cristão aprende a partir e a partilhar o “pão de cada dia” com os outros.

Além disso, o pão que comemos esconde toda uma rede de relações anônimas; antes de chegar à mesa, ele passou pelo trabalho de muitos braços; há muitas lágrimas e suor escondidos em cada pão, como também há muito de solidariedade e partilha.

  • Portanto, o pão que é produzido junto deve ser repartido junto e consumido junto.
  • A mesma necessidade básica nos iguala a todos; a satisfação coletiva nos confraterniza. Só então podemos, verdadeiramente, pedir: “o pão nosso de cada dia”.
  • Rezamos a Deus para permanecermos “pobres”; a nossa única riqueza é o amor do Pai.
  • De fato, só o pobre pode fazer essa oração, porque crê que hoje e amanhã é Deus que o sustenta. Ele não pede coisas supérfluas, mas simplesmente um pedaço de pão para poder viver “hoje”. Não pede riquezas nem a abundância de bens terrenos, com os quais poderia assegurar o seu futuro; pede o que necessita, o que lhe é indispensável para viver hoje. Além disso, ele sabe que este pão falta a muitos; por isso, pede para si e para todos os necessitados como ele.
  • Nos lábios do rico esta oração soa como uma mentira.

Texto bíblico:  Lc 11,1-13

Na oração: Rezar o Pai-Nosso utilizando o Segundo modo de orar, proposto por S. Inácio, ou seja, “Contemplar o significado de cada palavra da oração”.

  • Dizer palavra por palavra. Ex: Pai-Nosso.
  • Considerar esta palavra enquanto encontrar significados, sentidos novos, comparações, gosto e consolação, em considerações relacionadas com a mesma, sem se preocupar em passar adiante.
Padre Adroaldo Palaoro,SJ - Editor da Revista ITAICI (Espiritualidade Inaciana)