AMOR QUE VIVE “FORA DE SI”

“Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos”

(Jo 15,13)

O evangelista João recolhe um longo discurso de despedida de Jesus, onde são apresentados, com uma intensidade especial, alguns traços fundamentais que seus seguidores hão de recordar e viver ao longo dos tempos, para serem fiéis à Sua pessoa e a Seu projeto.

Jesus não apresenta aos seus discípulos uma “constituição” com seus capítulos e artigos, nem algumas “regras”, e menos ainda alguns “estatutos”. Só diz assim: “este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei”. O mandamento que Ele vive, também deseja que seja vivido por seus seguidores e seguidoras. Nada mais. Aprender do Mestre e praticar, como Ele, a arte de amar!

Em qualquer época e situação, o decisivo para o cristianismo é não se afastar do amor fraterno.

  • Nesse sentido, o mandamento do amor não é lei que se impõe de fora para dentro; ele “emana” do interior de cada um, pois todo ser humano traz em si a marca do Criador, que é puro Amor. Por isso, manifestar plenamente esse amor que é Deus, nas relações com os outros, é a expressão da verdadeira identidade cristã.

Há uma diferença que é preciso aclarar. Deus não é um ser que ama: Ele é o amor, ou, em melhor tradução, “Deus consiste em estar amando”.

N’Ele, o Amor é sua essência, não uma qualidade como em nós: podemos amar ou deixar de amar. Se Deus deixasse de amar um só instante, deixaria de ser Deus. Ele manifesta seu amor a Jesus como manifesta a cada um de nós. Mas não faz isso como nós. Não podemos esperar de Deus “mostras pontuais de amor”, porque não pode deixar de demonstrar isso um só instante.

O Amor de Deus é o primeiro; Ele não nos ama como resposta ao que somos ou fazemos, mas por aquilo que Ele é. Deus ama a todos da mesma maneira, porque não pode amar mais a um que a outro.

  • Este é o manifesto supremo do amor cristão. Não somos servos de Deus, pois Ele não se impõe de cima para que lhe obedeçamos, mas nos chama e nos faz seus “amigos”.
  • Também não somos empregados de Deus, para triunfo e glória de sua empresa, pois não temos na vida outra tarefa nem outra finalidade que ser amigos.
  • Somos simplesmente amigos de Deus em Jesus, como diz o evangelho de João, o testamento do amado.
  • Amar é simplesmente “deixar-se amar”, como as mulheres da páscoa, como o discípulo amado, como todos os que amaram a Jesus e se deixaram amar por Ele e com Ele, sem outro exercício que o continuar amando.

Por isso, a mensagem mais profunda do evangelho de João vem expressar-se no amor fraterno, vivido na forma de amizade. Não é simplesmente amor ao inimigo, nem é tampouco amor esponsal. É amor de irmãos que se tornam amigos. Neste manifesto de amizade culmina o evangelho, entendido, por fim, como “escola de amor”…, porque só quem ama e é amado pode assumir em presteza a tarefa da vida, cumprindo assim o “mandamento do amor”; “amor ágape”, gratuito, oblativo, impulso que faz “sair de si mesmo”.

  • Esta revelação do amor fraterno/amistoso é o dom supremo de Jesus à sua nova comunidade; a identidade dela não está na organização burocrática, na doutrina, nos ritos… mas em deixar-se conduzir pelo “movimento de amor”. Toda comunidade que descobre esse amor sabe que não necessita autoridades externas, hierarquias sacrais, obediências cegas…
  • Aqui não há mais imposição de uns sobre outros, mas comunhão de amigos. Essa mesma comunhão é a autoridade, a presença do Espírito Santo. As mediações ministeriais são, portanto, secundárias. Podem mudar as formas de organização eclesial, as ações concretas da comunidade; mas permanece a verdade como liberdade, e a autoridade como amor mútuo que vincula os(as) seguidores(as) de Jesus.
  • Sem amor não é possível dar passos para um cristianismo mais aberto, cordial, alegre, simples e amável, onde possamos viver como “amigos” de Jesus. Não saberemos como ativar a alegria de viver; sem a dinâmica do seguimento amoroso, continuaremos cultivando uma religião triste, centrada no legalismo, no ritualismo estéril que alimenta culpas, ressentimentos, medos e um mal-estar constante.
  • Jesus não veio complicar a vida com uma sobrecarga de normas, leis, ritos, doutrinas…; veio recuperar o essencial: basta amar. Diz S. João da Cruz: “na tarde da vida seremos examinados no amor”.

A vivência radical do amor, que está disposto a perder tudo por aqueles que ama, é o que em definitiva ajuda a ativar a alegria, a fazê-la crescer e compartilhá-la sem recompensa alguma. Jesus fala aos discípulos dessa alegria precisamente quando sua vida se precipita em direção à entrega na paixão, não por um desencanto da vida, mas por amor apaixonado à existência que o Deus da vida nos presenteia. Só a paixão do amor faz coexistir, em um mesmo fogo que os funde em uma união indissolúvel, a dor e a alegria, o amor à vida e o

risco de perdê-la, o amor aos amigos e a coragem de deixá-los, as perseguições dos inimigos e a audácia para morrer por eles.

Ser testemunhas e profetas da alegria constitui a essência dos seguidores e seguidoras de Jesus.

E “para viver a alegria, exercitar-se na alegria”. É preciso nos converter à alegria de Deus que é autêntica paixão pelo ser humano; é preciso contagiar a alegria do Evangelho; é preciso afastar obstáculos que travam a alegria de viver; é preciso remover a pedra de nossos sepulcros e viver como ressuscitados.

  • Como profetas da alegria, longe de fugir dos conflitos da vida, nós os enfrentamos e os integramos com sentido. Não temos mais fronteiras, não excluímos gênero, classe social, cor, língua, religião, não descarta-mos o aparentemente inútil. Por isso, nossa vida e nossa palavra querem ser anúncio e compromisso de concórdia e comunhão nos conflitos, unindo pontos, integrando diferenças, curando feridas. Devemos reforçar o testemunho de comunhão na diversidade para mostrar que é possível superar o medo às diferenças. Nossa vida alegre desmonta a hipocrisia, as ambições, a vaidade, o escândalo…

A presença do Ressuscitado deu à alegria um caráter existencial e não a faz depender nem do esforço pessoal nem de posse alguma de um bem temporal, mas do sentido global da pessoa.

Quem vive a partir da alegria, vive a partir do essencial e sabe discernir o autêntico das aparências e o útil do supérfluo. A alegria mantém alta a utopia e não se cansa em sua irradiação. Seguimos o conselho agostiniano: “A felicidade consiste em tomar com alegria o que a vida nos dá, e deixar com a mesma alegria o que ela nos tira”.

  • Quem é transparente e coerente transmite alegria em seu falar e em seu agir. Ser alegre não significa ser impassível, insensível diante da injustiça e da violência, diante da pobreza e da exclusão. As virtudes que acompanham a alegria fazem com que a pessoa alegre seja também compassiva e misericordiosa e trabalhe pela paz e pela justiça.
  • O profeta da alegria anuncia sempre mensagem de salvação, exercita a compaixão, suscita a esperança, se envolve na promoção da paz, da justiça, da solidariedade, da fraternidade….

Texto bíblico:  Jo 15,9-17

Na oração: Entre em sintonia, “ajuste-se” ao modo de amar de Deus: amor descendente, amor sem fronteiras, oblativo, expansivo… e que se “revela mais em obras do que em palavras” (S. Inácio).

  • Sinta-se envolvido(a) pelo Amor transbordante de Deus e, ao mesmo tempo, entre no fluxo desse Amor criativo, “descendo” à realidade cotidiana e ali deixando transparecer esse mesmo Amor, através dos encontros e do diálogo com os outros, sobretudo com aqueles que pensam, sentem e amam de maneira diferente.
Padre Adroaldo Palaoro, SJ