Maria, após o Concílio

Ao longo dos séculos muito se escreveu sobre Maria, obras, textos, tratados, orações. Tamanha era a devoção. Mas, após o Concílio Vaticano II, houve um silêncio, face a um esfriamento pela falta de entendimento, que aos poucos, foi se recuperando, tornando o tema diversificado e complexo, em face de suas novas dimensões; contribuições e novas formas de pensamento, conforme abaixo:

  1. Dimensões:
  2. Trinitária;
  3. Pneumatológica;
  4. Eclesiológica;
  5. Antropológica.
  6. Contribuições:
    1. Feministas
    2. Libertação
  7. Novas formas de pensamento:
    1. Exigências de inculturação;
    2. Valorização da religiosidade popular;
    3. Fidelidade à reforma litúrgica;
    4. Atenção às ciências humanas

Sabemos que as Escrituras falam pouco de Maria. Mas, Ela é a única referência feminina de nosso Credo. Então, não devemos desperdiçar, o que nos dizem os textos bíblicos, pois, só assim, a conhecemos: – Maria de Nazaré, não é apenas uma figura histórica, mais diferente, Ela emerge como uma personagem arquetípica e contemporânea de nossa geração.

Antes do Concílio, Maria possuía, títulos honoríficos e muitos privilégios e havia o lema: “De Maria nunca se fala o bastante”, também numerosas práticas devocionais existiam. Tudo isto, provoca dificuldade na busca de um equilíbrio mariológico após o Concílio, que provoca dificuldades em reconciliar a crítica de teólogos com a fé popular e a devoção a Maria. Mas, redescobre-se a partir da Bíblia: Maria, como figura feminina na História da Salvação.

A luz dos dogmas marianos, passamos compreender Maria a partir da fé da Igreja, como Mistério. E, na busca de entendimento, como projeto de Deus para a humanidade, abrimos horizontes, para Maria no mundo atual; Maria, a mulher; Maria com os pobres e Maria em nossa vida pessoal. Donde descobrimos continuidades, entre Maria, a mãe judia e histórica de Jesus e a Virgem da fé eclesial; entre Maria como símbolo da fé e figura da Igreja e Maria, mulher de Nazaré e Nossa Senhora da Fé.

O Magistério da Igreja declarou, os quatro dogmas marianos, que contém dois tipos de conteúdo: 1º) Cristológico: Maria, como uma verdade de fé acerca de Cristo; 2º) Antropológico: Maria, como sendo símbolo da salvação final. Assim, temos os quatro dogmas:

  1. Maria Theotókos:  Mãe de Deus, no Concílio de Éfeso, em 431;
  2. Aeiparthenos: sempre virgem, no II Concílio de Constantinopla, em 553 e no Sínodo de Latrão, em 649;
  3. Sem pecado original (Dogma da Imaculada Conceição, em 1854);
  4. E a que foi elevada ao céu (Dogma da Assunção, em 1950).

Nesta recuperação de Maria, após o Concílio, diversas perguntas surgem: a) Quem é Maria? b) O que foi dito ou escrito sobre ela, e por quê? c) A verdadeira Maria é aquela da doutrina da fé? d) A verdadeira Maria é aquela da crescente devoção dos crentes? e) Qual o sentido desse sentimento tão profundo, detectado nos povos e pessoas, com relação a Maria? f) Que motivos pode haver para que milhares e milhares de pessoas se reúnam em seus santuários?

Hoje, cinquenta e seis anos após o Concílio Vaticano II, observamos Maria acolhida, incluída na reflexão teológica numa complexa série de interações: popular, dogmática, teológica e magisterial, apontando a uma explicação teológica nada simples. Mas, uma teologia que supõe a contemplação e a experiência interior nos provoca a uma prática, que se abre a realidade, à profecia, ao compromisso.

Temporelli, Clara. MARIA, MULHER DE DEUS E DOS POBRES, releitura dos dogmas marianos, Ed. Paulus, 2017.