Inácio de Loyola

500 anos de conversão – 400 anos da canonização

O Ano Inaciano, ou seja, “fazer memória” de dois centenários: quinhentos anos da ferida sofrida por Inácio na batalha de Pamplona (maio de 1521), que lhe abriu a oportunidade para uma mudança radical em sua vida e quatrocentos anos de sua canonização (12 de março de 1622).

Pe. Arturo Soza, Superior-Geral dos jesuítas, convoca todos e todas a celebrarmos o ano inaciano com o tema: “Ver novas todas as coisas em Cristo”. “Desejamos descobrir um novo entusiasmo interior e apostólico, uma nova vida, novos caminhos para seguir o Senhor“.

Depois de cinco séculos, Santo Inácio continua sendo uma figura única e paradigmática. O marcante nele está no fato de ter sido capaz de situar-se, de maneira original e através do ritmo de decisões pessoais aprofundadas, no contexto de mudanças de seu mundo e de seu tempo. Ele é considerado o santo dos tempos novos que despontavam perante os olhos deslumbrados. Novos valores emergiam, novos modos de pensar, de sentir, de viver, novas descobertas, novas terras…

Inácio é o homem da mudança, da transição do tempo, dos tempos novos, agitados, turbulentos, de transbordantes mudanças que colocavam em questão tudo o que até então era recebido.

Já em seu leito de convalescença em Loyola, começou a prestar atenção e dar nome a tudo o que acontecia em seu mundo interior. Ali aprendeu os rudimentos do discernimento e decidiu sair de seu confinamento físico, social, espiritual… não voltou mais à “normalidade” da vida, mas abriu-se ao novo, sonhando grande, ensaiando outros caminhos, indo ao encontro de um mundo em efervescência.

Depois de ter posto os pés sobre as “pegadas” de seu Senhor na Terra Santa e beijar o solo que Ele havia pisado, Inácio compreendeu que a terra de Cristo era o vasto mundo do seu tempo. Desde então, para além do deserto e da peregrinação a Jerusalém, abriu-se, diante de seus olhos, outra vida.

O apelo, portanto, é celebrar o Ano Inaciano com uma forte conexão interna e pessoal ao espírito inaciano. Pode ser um tempo de unidade, de nos sentirmos parte de um carisma que nos supera, de nos sabermos peregrinos em meio a uma realidade tão desafiante. Carregamos rupturas pessoais, compartilhamos a dor de outras pessoas, caminhamos coxeando com dificuldades de múltiplas naturezas. Mas este Ano Inaciano pode ser também, para todos nós, uma ocasião privilegiada para que nos aproximemos de Inácio e nos deixemos ensinar por ele. Vamos adentrar um pouco mais em seu interior para podermos beber da mesma Fonte que o alimentou e ativou nele o impulso para uma mudança profunda em sua vida.

Nesse sentido, o Ano Inaciano pode-se revelar como um tempo de “kénosis” (de esvaziamento), um tempo de silêncio, um tempo para despertar uma outra sensibilidade, entrar em sintonia com o Deus presente e atuante em tudo e nos deixarmos envolver por suas mãos providentes. Aos poucos, iremos descobrindo que este “tempo” será de uma grande intensidade espiritual e que terá ressonâncias no nosso estilo de vida e nos nossos compromissos cotidianos.

Concentremo-nos, de modo especial, no processo de conversão vivido por Sto. Inácio ao longo de sua vida. Dizemos processo, porque sua conversão, como a nossa, não é um evento único e isolado, mas um percurso de transformação vital, conduzido pela Graça do Deus Providente que o move a uma identificação, sempre crescente, com seu Filho Jesus Cristo.

Que Santo Inácio nos inspire a viver este tempo como momento privilegiado para uma intensificação nas relações, para dar passos novos, para reinventar a vida e carregá-la de sentido.

Padre Adroaldo Palaoro,SJ - Editor da Revista ITAICI